{"id":13561,"date":"2016-02-26T13:43:04","date_gmt":"2016-02-26T16:43:04","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/02\/26\/integra-da-segunda-pregacao-da-quaresma-acolham-a-palavra-semeada-em-vosq\/"},"modified":"2017-06-02T11:00:07","modified_gmt":"2017-06-02T14:00:07","slug":"integra-da-segunda-pregacao-da-quaresma-acolham-a-palavra-semeada-em-vosq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/integra-da-segunda-pregacao-da-quaresma-acolham-a-palavra-semeada-em-vosq\/","title":{"rendered":"\u00cdntegra da segunda prega\u00e7\u00e3o da Quaresma: \u201cAcolham a Palavra semeada em v\u00f3s&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/geral\/ossrom95205_articolo.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>O Papa Francisco participou na manh\u00e3 desta sexta-feira (26\/02) da segunda prega\u00e7\u00e3o da Quaresma, na Capela Redemptoris Mater. O pregador da Casa Pontif\u00edcia, Fr. Raniero Cantalamessa, prop\u00f4s aos colaboradores da C\u00faria Romana uma reflex\u00e3o sobre a constitui\u00e7\u00e3o conciliar dogm\u00e1tica Dei Verbum, principalmente no que diz respeito \u00e0 pr\u00e1tica e \u00e0 medita\u00e7\u00e3o pessoal. Eis a reflexc\u00e3o na \u00edntegra:<\/p>\n<p>\u201cContinuamos a nossa reflex\u00e3o sobre os principais documentos do Vaticano II. Das quatro \u201cconstitui\u00e7\u00f5es\u201d aprovadas, a que se refere \u00e0 Palavra de Deus, a Dei verbum, \u00e9 a \u00fanica, junto com aquela sobre a Igreja, a Lumen gentium, a ter o status de \u201cdogm\u00e1tica\u201d. Isto se explica com o fato de que com este texto o Conc\u00edlio pretendia reafirmar o dogma da inspira\u00e7\u00e3o divina da Escritura e esclarecer, ao mesmo tempo, a sua rela\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o. Fiel \u00e0 tentativa de iluminar os aspectos mais estritamente espirituais e edificantes dos textos conciliares, limitar-me-ei, tamb\u00e9m aqui, a algumas reflex\u00f5es voltadas \u00e0 pr\u00e1tica e \u00e0 medita\u00e7\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>1. Um Deus que fala<\/p>\n<p>O Deus b\u00edblico \u00e9 um Deus que fala. \u201cFala o Senhor, Deus dos deuses&#8230; n\u00e3o est\u00e1 em sil\u00eancio\u201d, diz o Salmo (Sl 50, 1-3). O pr\u00f3prio Deus repete in\u00fameras vezes na B\u00edblia: &#8220;Ouve, \u00f3 meu povo, quero falar&#8221; (Sl 50, 7). Nisso a B\u00edblia v\u00ea a diferen\u00e7a mais clara com os \u00eddolos que &#8220;t\u00eam boca, mas n\u00e3o falam&#8221; (Sl 115, 5). Deus usou a palavra para comunicar-se com as criaturas humanas.<\/p>\n<p>Mas qual significado devemos dar a express\u00f5es t\u00e3o antropom\u00f3rficas como: \u201cDeus disse a Ad\u00e3o\u201d, \u201cassim fala o Senhor\u201d, \u201cdisse o Senhor\u201d, \u201cor\u00e1culo do Senhor\u201d, e outras coisas semelhantes? Trata-se evidentemente de um falar diferente do humano, um falar aos ouvidos do cora\u00e7\u00e3o. Deus fala como escreve! \u201cPorei minha lei no fundo de seu ser e a escreverei em seu cora\u00e7\u00e3o\u201d, diz no profeta Jeremias (Jr 31, 33).<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o tem boca e respira\u00e7\u00e3o humana: a sua boca \u00e9 o profeta, a sua respira\u00e7\u00e3o o Esp\u00edrito Santo. &#8220;Tu ser\u00e1s a minha boca\u201d diz Ele mesmo aos seus profetas, ou tamb\u00e9m \u201cporei a minha palavra nos teus l\u00e1bios\u201d. \u00c9 o significado da famosa frase: &#8220;Movidos pelo Esp\u00edrito Santo falaram aqueles homens da parte de Deus&#8221; (2 Pd 1, 21). A express\u00e3o &#8220;locu\u00e7\u00f5es interiores&#8221;, com a qual definimos o falar direto de Deus de certas almas m\u00edsticas, aplica-se, de certo modo qualitativamente diferente e superior, tamb\u00e9m ao falar de Deus aos profetas na B\u00edblia. No entanto, \u00e9 conceb\u00edvel que, em alguns casos, como no Batismo e da Transfigura\u00e7\u00e3o de Jesus, tem sido uma voz que soava milagrosamente mesmo fora.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, trata-se de um falar no verdadeiro sentido do termo; a criatura recebe uma mensagem que pode traduzir em palavras humanas. \u00c9 t\u00e3o v\u00edvido e real o falar de Deus que o profeta recorda com precis\u00e3o o lugar e o momento em que uma determinada palavra &#8220;veio&#8221; sobre ele: \u201cNo ano em que morreu o rei Uzias&#8221; (Is 6, 1), &#8220;\u201cNo trig\u00e9simo ano, no quinto dia do quarto m\u00eas, quando me encontrava entre os exilados, junto ao rio Cobar\u201d (Ez 1, 1), &#8220;no segundo ano do rei Dario, no sexto m\u00eas, no primeiro dia do m\u00eas&#8221; (Ageu 1, 1). Assim de concreta \u00e9 a palavra de Deus da qual se diz que \u201ccai\u201d sobre Israel, como se fosse uma pedra: \u201cO Senhor enviou uma palavra a Jac\u00f3, ela caiu em Israel\u201d (Is 9, 7). Outras vezes a mesma concretude e materialidade \u00e9 expressa com o s\u00edmbolo n\u00e3o da pedra que golpeia, mas do p\u00e3o que se come com prazer: \u201cQuando se apresentavam palavras tuas, as devorava: tuas palavras eram para mim contentamento e alegria de meu cora\u00e7\u00e3o\u201d (Jer 15, 16; cf tamb\u00e9m Ez 3, 1-3).<\/p>\n<p>Nenhuma voz humana atinge o homem com a profundidade com a qual atinge-o a palavra de Deus. Essa \u201cpenetra at\u00e9 dividir alma e esp\u00edrito, junturas e medulas. Ela julga as disposi\u00e7\u00f5es e as inten\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o\u201d (Hb 4, 12). \u00c0s vezes o falar de Deus \u00e9 &#8220;um trov\u00e3o poderoso que quebra os cedros do L\u00edbano&#8221; (Sl 29, 5), outras vezes se assemelha ao &#8220;murm\u00fario de uma brisa suave&#8221; (1 Reis 19, 12). Conhece todos os tons da fala humana.<\/p>\n<p>O discurso sobre a natureza do falar de Deus muda radicalmente no momento em que se l\u00ea na Escritura a frase: \u201cA palavra se fez carne\u201d (Jo 1, 14). Com a vinda de Cristo, Deus fala tamb\u00e9m com voz humana, aud\u00edvel com os ouvidos tamb\u00e9m do corpo. \u201cO que era desde o princ\u00edpio, o que n\u00f3s ouvimos, o que n\u00f3s vimos com os nossos olhos, o que n\u00f3s contemplamos e o que as nossas m\u00e3os tocaram, ou seja, o Verbo da vida [&#8230;] n\u00f3s o anunciamos tamb\u00e9m a v\u00f3s\u201d (1 Jo 1, 1).<\/p>\n<p>O Verbo foi visto e ouvido! Entretanto, o que se ouve n\u00e3o \u00e9 palavra de homem, mas palavra de Deus porque quem fala n\u00e3o \u00e9 a natureza, mas a pessoa, e a pessoa de Cristo \u00e9 a mesma pessoa divina do Filho de Deus. Nele Deus n\u00e3o nos fala mais por um intermedi\u00e1rio, \u201cpor meio dos profetas\u201d, mas pessoalmente, porque Cristo \u00e9 \u201ca irradia\u00e7\u00e3o da sua subst\u00e2ncia\u201d (cf. Hb 1, 2). Ao discurso indireto, na terceira pessoa, substitui-se o discurso direto, em primeira pessoa. N\u00e3o mais \u201cAssim fala o Senhor!\u201d ou \u201cOr\u00e1culo do Senhor!\u201d, mas \u201cEu vos digo!\u201d.<\/p>\n<p>O falar de Deus, tanto o mediado pelos profetas do Antigo Testamento, quanto o novo e direto de Cristo, depois de ter sido transmitido oralmente, acabou sendo colocado por escrito, e, assim, temos as divinas \u201cEscrituras\u201d.<\/p>\n<p>Santo Agostinho define o sacramento &#8220;uma palavra que se v\u00ea\u201d (verbum visibile[1]); n\u00e3o podemos definir a palavra \u201cum sacramento que se ouve\u201d. Em todo o sacramento se distingue um sinal vis\u00edvel e a realidade invis\u00edvel que \u00e9 a gra\u00e7a. A palavra que lemos na B\u00edblia, em si mesma, \u00e9 um sinal material, como a \u00e1gua no Batismo e o p\u00e3o na Eucaristia, uma palavra do vocabul\u00e1rio humano, n\u00e3o diferentes das outras. Mas, falando da f\u00e9 e da ilumina\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, atrav\u00e9s desse sinal, entramos misteriosamente em contato com a verdade viva e vontade de Deus e ouvimos a pr\u00f3pria voz de Cristo.<\/p>\n<p>\u201cO corpo de Cristo \u2013 escreve Bossuet \u2013 n\u00e3o est\u00e1 mais realmente presente no ador\u00e1vel sacramento do que quanto a verdade de Cristo est\u00e1 na prega\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica. No mist\u00e9rio da Eucaristia as esp\u00e9cies que v\u00eas s\u00e3o sinais, mas o que nelas se encerra \u00e9 o pr\u00f3prio corpo de Cristo; na Escritura, as palavras que ouvis s\u00e3o sinais, mas o pensamento que vos d\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria verdade do Filho de Deus[2]&#8221;<\/p>\n<p>A sacramentalidade da Palavra de Deus se revela no fato de que \u00e0s vezes obra claramente al\u00e9m da compreens\u00e3o da pessoa que pode ser limitada e imperfeita; obra quase por si mesma, ex opere operato, como se diz, dos sacramentos. Na Igreja houve e haver\u00e1 livros mais edificantes do que alguns da B\u00edblia (basta pensar na Imita\u00e7\u00e3o de Cristo); mas, nenhum deles obra como obra o mais modesto dos livros inspirados.<\/p>\n<p>Ouvi uma pessoa dar este testemunho em um programa de televis\u00e3o do qual eu tamb\u00e9m participei. Era um alco\u00f3latra no \u00faltimo est\u00e1gio; n\u00e3o conseguia ficar mais de duas horas sem beber; a fam\u00edlia estava \u00e0 beira do desespero. Convidaram-no, junto com sua esposa, para participar de um encontro sobre a palavra de Deus. L\u00e1 algu\u00e9m leu uma passagem da Escritura. Uma frase atravessou-lhe como uma chama de fogo, e deu-lhe a certeza de estar curado. Depois, toda vez que sentia a tenta\u00e7\u00e3o de beber, corria para a B\u00edblia naquele ponto e s\u00f3 ao ler as palavras sentia a for\u00e7a voltar nele, at\u00e9 que conseguiu ficar totalmente curado.<\/p>\n<p>Quando quis dizer qual era aquela famosa frase, a voz ficou entrecortada pela emo\u00e7\u00e3o. Era a palavra do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos: \u201cTeus amores s\u00e3o melhores do que o vinho\u201d (Ct 1, 2). Os estudiosos teriam feito careta diante desta aplica\u00e7\u00e3o, mas aquele homem podia dizer: \u201cEu estava morto e agora voltei \u00e0 vida\u201d, como o cego de nascen\u00e7a dizia aos seus cr\u00edticos: &#8220;Eu era cego, agora vejo&#8221; (Jo 9, 10 ss.).<\/p>\n<p>Uma coisa semelhante aconteceu tamb\u00e9m com Santo Agostinho. No auge da sua luta pela castidade, ouviu uma voz que repetia: \u201cTolle, lege!\u201d, toma e l\u00ea. Tendo consigo as cartas de S\u00e3o Paulo, abriu o livro decidido a tomar como vontade de Deus o primeiro texto que aparecesse. Era Rm 13,13ss: \u201cComo de dia, andemos decentemente; n\u00e3o em orgias e bebedeiras, nem em devassid\u00e3o e libertinagem, nem em rixas e ci\u00fames&#8230;\u201d. \u201cN\u00e3o quis ler mais \u2013 escreve nas Confiss\u00f5es \u2013 nem precisava. Terminada a leitura desta frase, uma luz, quase de certeza, penetrou no meu cora\u00e7\u00e3o e todas as trevas da d\u00favida se dissiparam[3]\u201d.<\/p>\n<p>2. A lectio divina<\/p>\n<p>Ap\u00f3s estas observa\u00e7\u00f5es sobre a palavra de Deus em geral, quero concentrar-se na palavra de Deus como caminho de santifica\u00e7\u00e3o pessoal. \u201c\u00c9 t\u00e3o grande a for\u00e7a e a virtude da palavra de Deus \u2013 diz a Dei Verbum \u2013 que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da f\u00e9 para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual[4]&#8221;.<\/p>\n<p>A partir do cartuxo Guigo II[5], v\u00e1rios m\u00e9todos e esquemas foram propostos para a lectio divina. Por\u00e9m, eles t\u00eam a desvantagem de serem concebidos quase sempre em fun\u00e7\u00e3o da vida mon\u00e1stica e contemplativa, e, portanto, inadequados para o nosso tempo, em que a leitura pessoal da Palavra de Deus \u00e9 recomendada a todos os crentes, religiosos e leigos.<\/p>\n<p>Felizmente, a pr\u00f3pria Escritura nos prop\u00f5e um m\u00e9todo de leitura da B\u00edblia acess\u00edvel a todos. Na Carta de S\u00e3o Tiago (Tg 1, 18-25) lemos um famoso texto sobre a Palavra de Deus. Dele tiramos um esquema de lectio divina, que tem tr\u00eas etapas ou opera\u00e7\u00f5es sucessivas: acolher a palavra, meditar a palavra, colocar em pr\u00e1tica a palavra. Reflitamos sobre cada um deles.<\/p>\n<p>a. Acolher a Palavra<\/p>\n<p>O primeiro passo \u00e9 a escuta da Palavra: &#8220;Acolham com docilidade, diz o ap\u00f3stolo, a Palavra que foi semeada em v\u00f3s\u201d. Esta primeira etapa abra\u00e7a todas as formas e os modos com que o crist\u00e3o entra em contato com a palavra de Deus: escuta da Palavra na liturgia, escolas b\u00edblicas, subs\u00eddios escritos e \u2013 insubstitu\u00edvel \u2013 a leitura pessoal da B\u00edblia.<\/p>\n<p>&#8220;O sagrado Conc\u00edlio exorta com ardor e insist\u00eancia todos os fi\u00e9is, mormente os religiosos, a que aprendam \u00aba sublime ci\u00eancia de Jesus Cristo\u00bb (Fil. 3,8) com a leitura frequente das divinas Escrituras [&#8230;] Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer atrav\u00e9s da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se v\u00e3o espalhando t\u00e3o louvavelmente por toda a parte, com a aprova\u00e7\u00e3o e est\u00edmulo dos pastores da Igreja[6]&#8221;.<\/p>\n<p>Nesta fase devemos tomar cuidado com dois perigos. O primeiro \u00e9 o de parar no primeiro est\u00e1gio e de transformar a leitura pessoal da palavra de Deus em uma leitura impessoal. Este perigo \u00e9 muito forte, especialmente nos lugares de forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Se algu\u00e9m espera deixar-se interpelar pessoalmente pela Palavra \u2013 observar Kierkegaard \u2013 at\u00e9 que n\u00e3o resolva todos os problemas conectados com o texto, as variantes e as diverg\u00eancias de opini\u00e3o dos estudiosos, nunca terminar\u00e1 qualquer coisa. A palavra de Deus foi dada para que a pratiques e n\u00e3o para que te exercites na exegese dos seus pontos obscuros[7].\u00a0 N\u00e3o s\u00e3o os pontos obscuros da B\u00edblia, dizia o mesmo fil\u00f3sofo, que me d\u00e3o medo; s\u00e3o os seus pontos claros!<\/p>\n<p>S\u00e3o Tiago compara a leitura da palavra de Deus com um olhar-se no espelho; mas quem se limita a estudar as fontes, as variantes, os g\u00eaneros liter\u00e1rios da B\u00edblia, sem fazer outra coisa, \u00e9 semelhante a algu\u00e9m que passa todo o tempo a olhar o espelho \u2013 examinando a sua forma, o material, o estilo, a \u00e9poca \u2013 , sem nunca olhar-se no espelho. Para essa pessoa o espelho n\u00e3o executa a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o. O estudo cr\u00edtico da palavra de Deus \u00e9 indispens\u00e1vel e nunca se \u00e9 suficientemente grato \u00e0queles que gastam as suas vidas para pavimentar o caminho para uma cada vez melhor compreens\u00e3o do texto sagrado, mas isso n\u00e3o esgota por si s\u00f3 o sentido das Escrituras; \u00e9 necess\u00e1rio, mas n\u00e3o suficiente.<\/p>\n<p>O outro perigo \u00e9 o fundamentalismo: o tomar tudo o que se l\u00ea na B\u00edblia literalmente, sem qualquer media\u00e7\u00e3o hermen\u00eautica. S\u00f3 aparentemente os dois extremos, do hipercriticismo e do fundamentalismo, s\u00e3o opostos: eles t\u00eam em comum o fato de pararem na letra, descuidando o Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Com a par\u00e1bola da semente e do semeador (Lc 8, 5-15), Jesus nos oferece uma ajuda para descobrir onde estamos, cada um de n\u00f3s, em termos de acolhimento da Palavra de Deus. Ele distingue quatro tipos de terreno: o caminho, o terreno pedregoso, os espinhos e a terra boa. Explica, portanto, o que simbolizam os diferentes terrenos: o caminho s\u00e3o aqueles sobre os quais a palavra de Deus n\u00e3o consegue nem repousar; o terreno pedregoso, os superficiais e os inconstantes que ouvem talvez com alegria, mas n\u00e3o d\u00e3o \u00e0 palavra a possibilidade de criar ra\u00edzes; o terreno cheio de espinhos, aqueles que se deixam sufocar pelas preocupa\u00e7\u00f5es e prazeres da vida; a terra boa s\u00e3o os que ouvem e d\u00e3o fruto com perseveran\u00e7a.<\/p>\n<p>Lendo, n\u00f3s podemos ser tentados a olhar com pressa para as tr\u00eas primeiras categorias, esperando chegar \u00e0 quarta que, mesmo com todas as limita\u00e7\u00f5es, pensamos que seja o nosso caso. Na verdade \u2013 e aqui est\u00e1 a surpresa \u2013 a terra boa s\u00e3o aqueles que, sem esfor\u00e7o, reconhecem-se em cada uma das tr\u00eas categorias anteriores! Aqueles que humildemente reconhecem quantas vezes ouviram distraidamente, quantas vezes foram inconstantes nos prop\u00f3sitos suscitados neles pela escuta de uma palavra do Evangelho, quantas vezes se deixaram levar pelo ativismo e pelas preocupa\u00e7\u00f5es materiais. Eis que eles involuntariamente est\u00e3o se tornando a verdadeira terra boa. Que o Senhor nos conceda sermos, tamb\u00e9m n\u00f3s, do seu n\u00famero!<\/p>\n<p>Sobre o dever de acolher a palavra de Deus e de n\u00e3o deixar nenhuma cair no vazio, ou\u00e7amos a exorta\u00e7\u00e3o que dava aos crist\u00e3os do seu tempo um dos maiores estudiosos da Palavra de Deus, o escritor Or\u00edgenes:<\/p>\n<p>&#8220;V\u00f3s que frequentemente tomais parte dos divinos mist\u00e9rios, quando recebais o corpo do Senhor conservem-no com todo cuidado e toda venera\u00e7\u00e3o para que nem sequer uma migalha caia no ch\u00e3o, para que nada se perca do dom consagrado. Estais convencidos, com raz\u00e3o, de que \u00e9 uma culpa deixar cair fragmentos por descuido. Se para conservar o seu corpo tendes tanto cuidado \u2013 e \u00e9 correto que assim seja \u2013 , saibais que descuidar a palavra de Deus n\u00e3o \u00e9 culpa menor do que descuidar o seu corpo[8]\u201d.<\/p>\n<p>b. Contemplar a Palavra<\/p>\n<p>O segundo passo sugerido por S\u00e3o Tiago consiste no \u201cfixar o olhar\u201d na palavra, no estar por muito tempo diante do espelho, em suma, na medita\u00e7\u00e3o ou contempla\u00e7\u00e3o da Palavra. Os Padres usavam a este respeito as imagens do mastigar e do ruminar. \u201cA leitura \u2013 escrevia Guigo II \u2013 oferece \u00e0 boca um alimento substancial, a medita\u00e7\u00e3o o mastiga e o tritura[9]\u201d. Quando se procura na mem\u00f3ria as coisas ouvidas e docemente s\u00e3o repensadas no cora\u00e7\u00e3o, torna-se semelhante ao ruminante\u201d, diz Santo Agostinho[10].<\/p>\n<p>A alma que se olha no espelho da palavra aprende a conhecer &#8220;como \u00e9,&#8221; aprende a conhecer a si mesma, descobre suas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem de Deus e a imagem de Cristo. &#8220;Eu n\u00e3o busco a minha gl\u00f3ria&#8221;, diz Jesus (Jo 8, 50): eis que o espelho est\u00e1 na sua frente e imediatamente voc\u00ea v\u00ea o qu\u00e3o distante est\u00e1 de Jesus se busca a sua gl\u00f3ria; &#8220;Bem-aventurados os pobres em esp\u00edrito&#8221;: o espelho est\u00e1 de novo na sua frente e imediatamente lhe descobre ainda cheio de apegos e cheio de coisas sup\u00e9rfluas, cheio, especialmente, de si mesmo; \u201ca caridade \u00e9 paciente&#8230;\u201d e voc\u00ea se d\u00e1 conta do qu\u00e3o \u00e9 impaciente, invejoso, interessado. Mais do que\u201cescrutar a Escritura\u201d (cf. Jo 5, 39), trata-se de deixar-se escrutar pela Escritura.<\/p>\n<p>&#8220;Pois a Palavra de Deus \u2013 diz a Carta aos Hebreus \u2013 \u00e9 viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; penetra at\u00e9 dividir alma e esp\u00edrito, junturas e medulas. Ela julga as disposi\u00e7\u00f5es e as inten\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o h\u00e1 criatura oculta \u00e0 sua presen\u00e7a\u201d (Hb 4, 12-13).<\/p>\n<p>No espelho da Palavra, felizmente, n\u00e3o vemos apenas a n\u00f3s mesmos e a nossa deformidade; vemos, antes de mais nada, o rosto de Deus; melhor, vemos o cora\u00e7\u00e3o de Deus. A Escritura, diz S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno, \u00e9 \u201cuma carta de Deus onipotente \u00e0 sua criatura; nela se aprende a conhecer o cora\u00e7\u00e3o de Deus nas palavras de Deus[11]\u201d. Tamb\u00e9m para Deus vale o ditado de Jesus: \u201cA boca fala do que est\u00e1 cheio o cora\u00e7\u00e3o\u201d (Mt 12, 34); Deus nos falou, na Escritura, do que est\u00e1 cheio o cora\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, do amor. Todas as Escrituras foram escritas para esta finalidade: que o homem pudesse entender o quanto Deus o ama, e compreendesse isso para abrasar-se do amor \u00e0 ele[12]. O ano jubilar da miseric\u00f3rdia \u00e9 uma ocasi\u00e3o magn\u00edfica para reler toda a Escritura deste \u00e2ngulo, como a hist\u00f3ria das miseric\u00f3rdias de Deus.<\/p>\n<p>c. Praticar a Palavra<\/p>\n<p>Chegamos, assim, \u00e0 terceira fase do caminho proposto pelo ap\u00f3stolo Tiago: \u201cSejam daqueles que praticam a palavra&#8230;, quem a pratica, encontrar\u00e1 a sua felicidade no pratica-la&#8230; se algu\u00e9m s\u00f3 escuta e n\u00e3o coloca em pr\u00e1tica a palavra, se assemelha a um homem que observa o pr\u00f3prio rosto em um espelho: depois de olhar, vai embora, e rapidamente esquece como era\u201d.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 tamb\u00e9m o que mais est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o de Jesus: \u201cMinha m\u00e3e e meus irm\u00e3os s\u00e3o aqueles que ouvem a palavra de Deus e a colocam em pr\u00e1tica\u201d (Lc 8, 21). Sem este \u201cpraticar a Palavra\u201d, todo o resto \u00e9 ilus\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o na areia (Mt 7, 26). Nem sequer pode-se dizer que se compreendeu a Palavra porque, como escreve S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno, a palavra de Deus se compreende realmente s\u00f3 quando come\u00e7a a ser praticada[13].<\/p>\n<p>Esta terceira etapa consiste, na pr\u00e1tica, na obedi\u00eancia \u00e0 Palavra. As palavras de Deus, sob a a\u00e7\u00e3o atual do Esp\u00edrito, se tornam express\u00e3o da viva vontade de Deus para mim, em um dado momento. Se escutamos com aten\u00e7\u00e3o, nos daremos conta com surpresa de que n\u00e3o h\u00e1 dia sequer em que na liturgia, na recita\u00e7\u00e3o de um salmo, ou em outros momentos, n\u00e3o descobrimos uma palavra da qual devemos dizer: \u201cIsso \u00e9 para mim! Isso \u00e9 o que devo fazer hoje!\u201d.<\/p>\n<p> A obedi\u00eancia \u00e0 palavra de Deus \u00e9 a obedi\u00eancia que podemos fazer sempre. Obedi\u00eancia a ordens e autoridades vis\u00edveis, acontece s\u00f3 de vez em quando, tr\u00eas ou quatro vezes em toda a vida, caso sejam obedi\u00eancias s\u00e9rias; mas de obedi\u00eancias \u00e0 palavra de Deus \u00e9 poss\u00edvel fazer uma a cada momento. \u00c9 tamb\u00e9m a obedi\u00eancia que podemos fazer todos, s\u00faditos e superiores. Santo In\u00e1cio de Antioquia dava este maravilhoso conselho a um colega seu no episcopado: \u201cQue nada se fa\u00e7a sem o teu consentimento, mas, tu, nada fa\u00e7as sem o consentimento de Deus[14]\u201d. <\/p>\n<p>Obedecer \u00e0 Palavra de Deus significa, na pr\u00e1tica, seguir as boas inspira\u00e7\u00f5es. O nosso programa espiritual depende em grande parte da sensibilidade \u00e0s boas inspira\u00e7\u00f5es e da prontid\u00e3o com que respondemos a elas. Uma palavra de Deus te sugeriu um prop\u00f3sito, colocou no teu cora\u00e7\u00e3o o desejo de uma boa confiss\u00e3o, de uma reconcilia\u00e7\u00e3o, de um ato de caridade; te convida a parar um momento o trabalho e dirigir a Deus um ato de amor. N\u00e3o coloque trava; n\u00e3o deixe passar. \u201cTimeo Iesum transeuntem\u201d, dizia o pr\u00f3prio Agostinho[15]; como dizendo: \u201cTenho medo da sua boa inspira\u00e7\u00e3o que passa e n\u00e3o volta mais\u201d.<\/p>\n<p>Terminamos com o pensamento de um antigo Padre do deserto[16]. A nossa mente, dizia, \u00e9 como um moinho; o primeiro gr\u00e3o que \u00e9 colocado na manh\u00e3 \u00e9 o que continua a moer durante todo o dia. Apressemo-nos, portanto, a colocar neste moinho, desde o primeiro momento da manh\u00e3, o bom gr\u00e3o da palavra de Deus, sen\u00e3o, vem o dem\u00f4nio e coloca a erva daninha que durante todo o dia far\u00e1 a moedura. A palavra particular que colocamos hoje no moinho da nossa mente \u00e9 o proposto como lema do ano jubilar: &#8220;Sede misericordiosos como vosso Pai celeste \u00e9 misericordioso&#8221;\u201d.<\/p>\n<p>[1] Santo Agostino, Tratados sobre o Evangelho de Jo\u00e3o, 80, 3.<\/p>\n<p>[2] J.B. Bossuet, Sur la parole de Dieu, in \u0152uvres oratoires de Bossuet, III, Descl\u00e9e de Brouwer, Paris 1927, p. 627.<\/p>\n<p>[3] Santo Agostinho, Confiss\u00f5es, VIII, 29.<\/p>\n<p>[4] Dei Verbum, n. 21.<\/p>\n<p>[5] Guigo II, Lettera sulla vita contemplativa (Scala claustralium), 3, in Un itinerario di contemplazione. Antologia di autori certosini, Edizioni Paoline, Milano 1986, p. 22<\/p>\n<p>[6] Dei Verbum, n. 25.<\/p>\n<p>[7] S. Kierkegaard, Per l\u2019esame di se stessi. La Lettera di Giacomo, 1, 22, in Opere, a cura di C. Fabro, cit., pp. 909 ss.<\/p>\n<p>[8] Or\u00edgenes, In Exod. hom. XIII, 3.<\/p>\n<p>[9] Guigo II, Lettera sulla vita contemplativa (Scala claustralium), 3, in Un itinerario di contemplazione. Antologia di autori certosini, Edizioni Paoline, Milano 1986, p. 22.<\/p>\n<p>[10] Santo Agostinho, Enarr. in Ps., 46, 1 (CCL 38, 529).<\/p>\n<p>[11] S. Gregorio Magno, Registr. Epist., IV, 31 (PL 77, 706).<\/p>\n<p>[12] Santo Agostinho, De catech. rud., I, 8.<\/p>\n<p>[13] S. Gregorio Magno, Su Ezechiele, I, 10, 31 (CCL 142, p. 159).<\/p>\n<p>[14] S. Ignazio d\u2019Antiochia, Lettera a Policarpo 4, 1.<\/p>\n<p>[15] S. Agostino, Discorsi, 88, 14, 13.<\/p>\n<p>[16] Cf. Giovanni Cassiano, Conferenze, I, 18.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: R\u00e1dio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa Francisco participou na manh\u00e3 desta sexta-feira (26\/02) da segunda prega\u00e7\u00e3o da Quaresma, na Capela Redemptoris Mater. O pregador da Casa Pontif\u00edcia, Fr. 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