{"id":13381,"date":"2016-02-12T15:55:44","date_gmt":"2016-02-12T17:55:44","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/02\/12\/quem-matou-dorothy-stang-em-12-de-fevereiro-de-2005-continua-matando\/"},"modified":"2017-05-30T10:44:37","modified_gmt":"2017-05-30T13:44:37","slug":"quem-matou-dorothy-stang-em-12-de-fevereiro-de-2005-continua-matando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/quem-matou-dorothy-stang-em-12-de-fevereiro-de-2005-continua-matando\/","title":{"rendered":"Quem matou Dorothy Stang, em 12 de fevereiro de 2005, continua matando"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/geral\/000 a a a adorothy1.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>A repercuss\u00e3o desse assassinato deu a impress\u00e3o que a viol\u00eancia de crimes praticados por motivos id\u00eanticos, se n\u00e3o fosse eliminada, pelo menos diminuiria. Os fatos posteriores v\u00eam provando o contr\u00e1rio. Camponesas e camponeses de Anapu, no sul do Par\u00e1, certamente v\u00e3o se reunir neste 12 de fevereiro, para lembrar a morte da freira Dorothy Stang, uma fiel e dedicada companheira delas\/es, religiosa conhecida por sua coragem e disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A religiosa foi assassinada em raz\u00e3o de sua luta em favor do povo pobre daquela regi\u00e3o, da reforma agr\u00e1ria, e contra o desmatamento crescente que l\u00e1 se verificava, promovido por latifundi\u00e1rios interessados, como em outros lugares do pa\u00eds, na expans\u00e3o do plantio de soja, na conquista de espa\u00e7o para o gado, em minera\u00e7\u00e3o e em vender madeira.<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o nacional e internacional desse assassinato deu a impress\u00e3o, como j\u00e1 ocorrera com o massacre de Eldorado do Caraj\u00e1s, sintomaticamente acontecido no mesmo Estado do Par\u00e1, que a viol\u00eancia de crimes praticados por motivos id\u00eanticos ao que matou Dorothy, se n\u00e3o fosse eliminada, pelo menos diminuiria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/geral\/000 a a a adorothy2.jpg\" border=\"0\" align=\"right\" \/>Os fatos posteriores v\u00eam provando o contr\u00e1rio, chamando a aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 de \u00f3rg\u00e3os da imprensa estrangeira como \u00e9 o caso do Financial Times. Na sua edi\u00e7\u00e3o de 10 de dezembro passado, abriu mat\u00e9ria sob a seguinte manchete: \u201cTerras sem lei amea\u00e7am compromisso clim\u00e1tico brasileiro.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 que estava em andamento naquela semana a COP 21, em Paris, encontro no qual o Brasil se comprometeu, segundo a mesma not\u00edcia, a acabar com o desmatamento ilegal, aqui, at\u00e9 2030&#8230; O jornal manifestava pouco acreditar nisso (mesmo um prazo dessa extens\u00e3o n\u00e3o ser nada pequeno, levando-se em conta a gravidade do problema) diante de mais um assassinato ocorrido ent\u00e3o na mesma Anapu. Winslei Gon\u00e7alves Barbosa, de 23 anos, fora emboscado e morto:<\/p>\n<p>\u201cUma bala est\u00e1 alojada em seu capacete, que rolou para o lado. Mas a pol\u00edcia ainda n\u00e3o chegou e muito menos come\u00e7ou a buscas pelos seus assassinos. \u00c9 mais um sinal da aus\u00eancia de lei e da viol\u00eancia que afligem grande parte da Amazonia brasileira \u2013 problemas que t\u00eam um peso direto nas discuss\u00f5es globais que est\u00e3o perto de um desfecho em Paris nesta semana.\u201d<\/p>\n<p>Sobre o trabalho da Irm\u00e3 Dorothy, a not\u00edcia refere: \u201cTomar partido dos sem-terras foi parte do trabalho de Stang, cuja mem\u00f3ria \u00e9 homenageada em Anapu por uma prociss\u00e3o anual comemorativa atrav\u00e9s da cidade empoeirada, junto com o Fusca branco dela, muito bem cuidado. Stang defendeu dois grandes \u201cprojetos de desenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d em terras governamentais que os pecuaristas ocuparam: Esperan\u00e7a, onde Gon\u00e7alves Barbosa foi assassinado, e Virola-Jatob\u00e1. A ideia de Stang era permitir que os sem-terras fossem assentados em troca da preserva\u00e7\u00e3o de grande parte da floresta. Um grupo de fazendeiros comandado por Reginaldo Pereira Galv\u00e3o, conhecido como \u201cTarad\u00e3o\u201d, encomendou seu assassinato para barrar a execu\u00e7\u00e3o dos projetos. Galv\u00e3o foi condenado pelo crime a 30 anos de pris\u00e3o, mas continua solto ap\u00f3s apresentar recurso e aguarda o resultado.\u201d<\/p>\n<p>Uma cr\u00edtica procedente de um jornal estrangeiro pode ser colocada sob reserva, mas se ela for comparada com dados da pr\u00f3pria CPT, recolhidos pelo site Ag\u00eancia Brasil no in\u00edcio de janeiro passado, tem-se de reconhecer como bem fundadas as desconfian\u00e7as ali manifestadas sobre o nosso Estado de Direito:<\/p>\n<p>\u201cO n\u00famero de assassinatos decorrentes de conflitos no campo em 2015 foi o maior dos \u00faltimos 12 anos no Brasil, com 49 mortes registradas, a maior parte na Regi\u00e3o Norte\u201d \u201cA CPT ressalva, no entanto, que os dados s\u00e3o ainda parciais e podem vir a aumentar \u00e0 medida que sejam consolidadas as informa\u00e7\u00e3es provenientes do trabalho in loco.\u201d \u201cO n\u00famero de mortes decorrentes de conflitos no campo no ano passado foi o maior desde 2003, quando foram contabilizados 73 assassinatos.\u201d \u201d O Norte do pa\u00eds \u00e9 um barril de p\u00f3lvora\u2018, disse o coordenador da CPT em Pernambuco, Pl\u00e1cido J\u00fanior, respons\u00e1vel pela compila\u00e7\u00e3o dos dados nacionais: Al\u00e9m do avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio tradicional, acreditamos que o aumento das tens\u00f5es no campo em 2015 tenha rela\u00e7\u00e3o com maiores disputas por recursos como madeira e \u00e1gua, o prosseguimento de grandes emprendimentos de minera\u00e7\u00e3o e energia e a diminui\u00e7\u00e3o no n\u00famero de assentamentos e demarca\u00e7\u00f5es.\u201d \u201cDados da entidade mostram que de 1.115 casos de homic\u00eddio decorrentes de conflitos no campo registrados entre 1985 e 2014, 12 foram julgados.\u201d<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia com uma realidade de tamanha injusti\u00e7a n\u00e3o pode continuar anestesiando a na\u00e7\u00e3o como se toda ela s\u00f3 dissesse respeito \u00e0s v\u00edtimas dos seus tr\u00e1gicos efeitos. O passado tem-nos mostrado quantas pessoas \u201cde fora\u201d v\u00eam para c\u00e1, escandalizadas com isso e por motivos bem diferentes das grandes empresas transnacionais. Oferecem as suas pr\u00f3prias vidas em defesa da nossa terra e da nossa gente, como fez a Irm\u00e3 Dorothy e muitas\/os mission\u00e1rias\/os.<\/p>\n<p>O Frei Henri Burin des Roziers, advogado da CPT em Xinguara, tamb\u00e9m no Par\u00e1, tem de andar acompanhado de seguran\u00e7as, como outras pessoas do clero e fora dele, amea\u00e7ado de morte como est\u00e1. Em uma entrevista concedida \u00e0 uma revista, anos passados, quando essa seguran\u00e7a praticamente lhe foi imposta, t\u00e3o grande era o temor de se repetir o acontecido com a Irm\u00e3 Dorothy, ele disse tudo o que precisa ser dito, a respeito da seguran\u00e7a e da paz a que t\u00eam direito as\/os camponesas\/os brasileiras. Por rejeitar o privil\u00e9gio a ele conferido, por ser quem \u00e9, preferiria viver sem escolta alguma, num Estado garante de seguran\u00e7a para todas\/os, fruto de uma conviv\u00eancia fraterna sobre terra, na qual a reforma agr\u00e1ria tivesse alcan\u00e7ado reparti-la de forma justa, n\u00e3o usurpada por poucos, em favor da reprodu\u00e7\u00e3o da pobreza e em preju\u00edzo da maioria.<\/p>\n<p>* Jacques T\u00e1vora Alfonsin \u00e9 procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: POM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A repercuss\u00e3o desse assassinato deu a impress\u00e3o que a viol\u00eancia de crimes praticados por motivos id\u00eanticos, se n\u00e3o fosse eliminada, pelo menos diminuiria. Os fatos posteriores v\u00eam provando o contr\u00e1rio. 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