{"id":13292,"date":"2016-02-03T17:02:14","date_gmt":"2016-02-03T19:02:14","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/02\/03\/ateismo-leve-um-perigo-nem-tao-leve-assim\/"},"modified":"2017-05-31T13:35:49","modified_gmt":"2017-05-31T16:35:49","slug":"ateismo-leve-um-perigo-nem-tao-leve-assim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/ateismo-leve-um-perigo-nem-tao-leve-assim\/","title":{"rendered":"\u201cAte\u00edsmo leve\u201d: um perigo nem t\u00e3o leve assim"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/geral\/21780lpr_162c98b0a1e3d11.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Ser\u00e1 mesmo que a experi\u00eancia religiosa \u00e9 s\u00f3 uma forma de psicose?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As p\u00e1ginas do New York Times compartilharam faz alguns meses um instrutivo interc\u00e2mbio de ideias entre Gary Gutting, professor de filosofia da Universidade de Notre Dame, e Philip Kitcher, professor de filosofia da Universidade de Columbia.<\/p>\n<p>Kitcher se descreve como um defensor do \u201cate\u00edsmo leve\u201c, o que viria a significar um ate\u00edsmo mais suave que a vers\u00e3o pol\u00eamica defendida por Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Ao contr\u00e1rio desses colegas, Kitcher admite que a religi\u00e3o pode ter um papel eticamente \u00fatil numa sociedade predominantemente laica. Eu n\u00e3o vou entrar no m\u00e9rito desta caracter\u00edstica do pensamento de Kitcher, porque j\u00e1 explorei a redu\u00e7\u00e3o kantiana da religi\u00e3o \u00e0 \u00e9tica em outros textos, mas gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o para um particular aspecto desta entrevista, que mostra, com not\u00e1vel clareza, um dos mal-entendidos fundamentais sobre a religi\u00e3o, bastante comum entre os ateus.<\/p>\n<p>Kitcher declarou que considera toda a doutrina religiosa n\u00e3o cr\u00edvel. Instado a dar uma explica\u00e7\u00e3o dessa postura algo exagerada, ele aponta a pluralidade extraordin\u00e1ria de doutrinas religiosas: crist\u00e3os, judeus, hindus, mu\u00e7ulmanos, animistas, etc., todos com vis\u00f5es radicalmente diferentes sobre a realidade, o divino, o prop\u00f3sito humano na vida. E, uma vez que todas as religi\u00f5es se alicer\u00e7am fundamentalmente no mesmo terreno, o de uma revela\u00e7\u00e3o apresentada a ancestrais nossos j\u00e1 muito distantes, n\u00e3o h\u00e1 nenhum meio racional de ponderar essas diferen\u00e7as. O \u00fanico motivo real de eu ser crist\u00e3o, diria ele, \u00e9 o fato de ter nascido de pais crist\u00e3os que me passaram as hist\u00f3rias-chave do cristianismo. Se voc\u00ea \u00e9 judeu, mu\u00e7ulmano ou hindu e tem hist\u00f3rias-chave diferentes das minhas, n\u00e3o h\u00e1 maneira razo\u00e1vel de eu o convencer nem de voc\u00ea me convencer. \u00c9 o seu mito contra o meu. Esta \u00e9, obviamente, uma variante da vis\u00e3o iluminista: a religi\u00e3o positiva seria irracional e, portanto, inevitavelmente violenta, dependendo somente da for\u00e7a bruta a possibilidade de substituir uma religi\u00e3o por outra.<\/p>\n<p>O problema fundamental \u00e9 que Kitcher ignora por completo o papel decisivamente importante que a tradi\u00e7\u00e3o religiosa desempenha no desenvolvimento e na ratifica\u00e7\u00e3o da doutrina. \u00c9 verdade que a religi\u00e3o se baseia, no geral, em eventos fundamentais, mas essas experi\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o simplesmente repassadas \u200b\u200bem sil\u00eancio de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, elas s\u00e3o peneiradas e testadas, num processo complexo de recep\u00e7\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o. Elas s\u00e3o comparadas com outras experi\u00eancias semelhantes; s\u00e3o analisadas \u200b\u200bde forma racional; s\u00e3o colocadas em discuss\u00e3o e contrastadas com o que sabemos do mundo por outras fontes; s\u00e3o submetidas a investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica; suas camadas de significa\u00e7\u00e3o s\u00e3o descobertas atrav\u00e9s de conversas que v\u00eam se desenrolando ao longo de centenas e at\u00e9 milhares de anos; suas implica\u00e7\u00f5es comportamentais e \u00e9ticas s\u00e3o esmiu\u00e7adas e avaliadas constantemente.<\/p>\n<p>Vamos usar um exemplo da b\u00edblia para ilustrar como esse processo acontece. O livro do G\u00eanesis nos diz que o patriarca Jac\u00f3, certa noite, teve um sonho em que anjos subiam e desciam por uma grande escada, enraizada na terra e estendida at\u00e9 o c\u00e9u. Ao acordar, ele declarou que o local onde havia dormido era santo e o consagrou com um altar. A tradi\u00e7\u00e3o recebeu essa hist\u00f3ria e retirou dela implica\u00e7\u00f5es que prop\u00f5em quest\u00f5es metaf\u00edsicas e espirituais profundas: o ser finito e o Ser Infinito est\u00e3o intimamente ligados um ao outro; cada lugar \u00e9 potencialmente um local de encontro com o poder que sustenta o cosmos; h\u00e1 uma hierarquia na realidade criada e na sua rela\u00e7\u00e3o com Deus; adorar a Deus \u00e9 alentador para os seres humanos, e assim por diante.<\/p>\n<p>Estas conclus\u00f5es derivam do processo de \u201cpeneira\u00e7\u00e3o\u201d a que me referi e fornecem a base para algo que Kitcher e seus colegas acham inadmiss\u00edvel: a possibilidade da argumenta\u00e7\u00e3o concreta sobre a religiosidade. N\u00e3o \u00e9 mera quest\u00e3o de contrapor hist\u00f3rias antigas umas \u00e0s outras; \u00e9 quest\u00e3o de analisar, triar e comparar esse legado com a experi\u00eancia. E quando isto ocorre entre interlocutores de diferentes tradi\u00e7\u00f5es religiosas, desde que sejam pessoas de intelig\u00eancia e boa vontade, podem-se conseguir grandes progressos. Os parceiros dessa conversa podem descobrir um n\u00famero not\u00e1vel de verdades em comum, pontos de contato entre doutrinas que pareciam em desacordo total, al\u00e9m de ensinamentos que s\u00e3o, de fato, mutuamente excludentes. Mesmo no que diz respeito aos pontos de disc\u00f3rdia, por\u00e9m, ainda podem ser propostos, por ambos os lados, muitos argumentos aut\u00eanticos.<\/p>\n<p>O que me incomoda na proposta de Kitcher \u00e9 que ele relega todas as religi\u00f5es ao \u00e2mbito do simplesmente irracional. \u00c9 interessante notar que, v\u00e1rias vezes, no decorrer da entrevista, ele compara a experi\u00eancia religiosa com as experi\u00eancias de pessoas que sofrem de psicose. Isto indica o perigo real de uma vis\u00e3o desse tipo: uma sociedade dominada por um ate\u00edsmo \u201cleve\u201d como o de Kitcher pode tolerar as pessoas religiosas durante certo tempo, mas ir\u00e1, em algum momento, marginaliz\u00e1-las ou at\u00e9 propor intern\u00e1-las por insanidade. Se voc\u00ea acha esta \u00faltima sugest\u00e3o paranoica, repasse a pol\u00edtica da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que n\u00e3o concordavam com a ideologia imposta.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo XIX, John Henry Newman lutou tenazmente para defender a racionalidade das reivindica\u00e7\u00f5es religiosas. A entrevista de Kitcher, bem como os volumosos escritos dos seus aliados intelectuais, me faz pensar que a mesma batalha precisa ser lutada tamb\u00e9m hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Aleteia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 mesmo que a experi\u00eancia religiosa \u00e9 s\u00f3 uma forma de psicose? 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