{"id":13152,"date":"2016-02-02T03:00:00","date_gmt":"2016-02-02T05:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/02\/02\/santa-beatriz-da-silva-nos-descortina-os-valores-eternos\/"},"modified":"2017-05-08T16:18:55","modified_gmt":"2017-05-08T19:18:55","slug":"santa-beatriz-da-silva-nos-descortina-os-valores-eternos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/santa-beatriz-da-silva-nos-descortina-os-valores-eternos\/","title":{"rendered":"Santa Beatriz da Silva nos descortina os valores eternos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Os santos e as santas s\u00e3o homens e mulheres que a Igreja coloca como modelos da pr\u00e1tica das virtudes crist\u00e3s em grau heroico a cada um de n\u00f3s, a fim de que possamos imitar, com a gra\u00e7a de Deus, o seu modo de ser e agir. Colocando-nos nessa escola de santidade com o cora\u00e7\u00e3o aberto teremos mais facilidade em tentar construir um mundo melhor, e tamb\u00e9m chegarmos \u00e0 gl\u00f3ria celeste no fim de nossa peregrina\u00e7\u00e3o terrena.<br \/>Pois bem, nesse contexto, importa apresentar a vida de Santa Beatriz da Silva, portuguesa do s\u00e9culo XV que, ap\u00f3s viver na corte real espanhola, fundou, em Toledo, na mesma Espanha, a Ordem das Irm\u00e3s Concepcionistas Franciscanas, de clausura, presente em v\u00e1rios estados brasileiros, inclusive em nossa amada Arquidiocese de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro, no Mosteiro da Ajuda, trabalhando e rezando por toda a humanidade.<br \/>Para esse artigo muitos livros e textos foram consultados e utilizados, em especial os da pr\u00f3pria Ordem, que divulga sua vida e a obra da fundadora. Neste Ano da Vida Consagrada, que j\u00e1 estamos findando, \u00e9 um belo exemplo de vida de ora\u00e7\u00e3o e intercess\u00e3o.<br \/>Beatriz nasceu em Campo Maior, Portugal, no ano de 1426, filha de Rui Gomes da Silva e Isabel de Meneses, ambos muito cat\u00f3licos e parentes da fam\u00edlia real portuguesa. Nessas circunst\u00e2ncias, a menina aprendeu maneiras nobres de ser e, tamb\u00e9m recebeu boa educa\u00e7\u00e3o religiosa, rezando desde muito pequena a Ave-Maria, e tendo especial devo\u00e7\u00e3o a S\u00e3o Rafael Arcanjo, a quem ela atribuir\u00e1 muitas gra\u00e7as em seus sessenta e seis anos de vida.<br \/>Na casa dos Silva Menezes se respirava a devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora, especialmente sob o t\u00edtulo de Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 fora definido solenemente pelo Papa Pio IX em 1854, mas sempre foi objeto de f\u00e9 entre os fi\u00e9is, ainda que sob fortes debates teol\u00f3gicos. Nesse contexto, Dom Rui Gomes da Silva queria um quadro da Imaculada e contratou um pintor italiano para faz\u00ea-lo. Como, por\u00e9m, fosse necess\u00e1rio um modelo de inspira\u00e7\u00e3o ao artista, o pai escolheu a linda Beatriz para ficar sentada diante do pintor, mesmo a contragosto da menina, que n\u00e3o se achava digna de \u201crepresentar\u201d Nossa Senhora. Obedeceu, por\u00e9m, a ordem do pai com a condi\u00e7\u00e3o de permanecer, durante todo o tempo, de olhos fechados.<br \/>Resultado: tem-se, no quadro, a Virgem de olhos quase fechados, sentada em atitude muito modesta. O v\u00e9u escorre sobre a cabe\u00e7a, deixando \u00e0 vista alguns flocos de cabelo. O manto cai nos ombros, juntando-se com arte sobre os joelhos. No colo, tem o menino Jesus a apoiar a m\u00e3ozinha esquerda sobre a cabe\u00e7a de S\u00e3o Francisco de Assis, e a direita a oferecer uma vela a Santo Ant\u00f4nio.<br \/>Dos onze filhos do casal, um, Jo\u00e3o, fez-se frade franciscano tomando o nome de frei Amadeo, enquanto Beatriz tamb\u00e9m acalentava um sonho secreto de se consagrar a Deus como religiosa, embora nada falasse a ningu\u00e9m. Da\u00ed o pai sonhar faz\u00ea-la uma grande dama na Corte Real e garantir-lhe um futuro brilhante, como se garantia a n\u00e3o poucos nobres de ent\u00e3o. O sonho de Dom Rui se tornou realidade.<br \/>Sim, em pouco tempo a not\u00edcia do casamento de Dom Jo\u00e3o II, rei de Portugal, com Dona Isabel, princesa da Espanha que ap\u00f3s o matrim\u00f4nio se tornaria rainha, agitou as duas na\u00e7\u00f5es e especialmente as fam\u00edlias mais nobres de ambos os pa\u00edses. Uma das escolhidas para ser dama de companhia de Isabel foi a linda Beatriz, de 21 anos, e isso por duas raz\u00f5es: era de inteira confian\u00e7a da monarca e, tamb\u00e9m, sua parenta de sangue.<br \/>A emo\u00e7\u00e3o da jovem com o cortejo nupcial de sua rainha n\u00e3o a levou a parar nas coisas deste mundo, mas, sim, a elevar o pensamento aos bens celestes. Afinal, se uma corte terrena j\u00e1 empolgava a tantos, quanto mais grandiosa, em todos os aspectos, n\u00e3o deveria ser a corte celestial, na qual a pr\u00f3pria M\u00e3e de Deus e nossa m\u00e3e \u00e9 a Rainha?<br \/>No entanto, o vislumbre natural de Beatriz pelos aposentos palacianos come\u00e7a a se transformar em pesadelo, dado que uma bela jovem como ela n\u00e3o passaria despercebida de tantos nobres desejosos de se casarem. Um dos mais interessados \u00e9 Dom \u00c1lvaro de Luna, alto ministro do rei, mas ela, de modo muito educado, por\u00e9m firme, se recusou a atender ao seu importante pedido, assim como fez diante de outros pretendentes que sempre se aproximavam do pal\u00e1cio real para v\u00ea-la, deixando, inclusive, a rainha com ci\u00fames de sua dama. Afinal, ela mesma, a monarca, parecia diminu\u00edda.<br \/>Beatriz n\u00e3o se chocou com o problema, mas buscou ref\u00fagio em um mosteiro de monjas clarissas (filhas espirituais de Santa Clara de Assis) pr\u00f3ximo dali e l\u00e1 passava horas e horas a entreter-se em elevadas conversas com as irm\u00e3s, especialmente com a Irm\u00e3 Gaud\u00eancia que lhe dava bons conselhos e a levava cada vez mais a aproximar-se da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o de Maria em meio ao sil\u00eancio e \u00e0 ora\u00e7\u00e3o.<br \/>No pal\u00e1cio, as intrigas contra nossa jovem dama s\u00f3 aumentavam. O \u00f3dio da rainha crescia. Chegou-se a duvidar da integridade moral de Beatriz. Ela teria um caso com o pr\u00f3prio rei. A jovem rezava e pedia a Nossa Senhora que intercedesse a Deus para o desaparecimento de sua beleza f\u00edsica. Sem formosura n\u00e3o atrairia ningu\u00e9m e tudo passaria. Era tarde, por\u00e9m, a rainha Isabel j\u00e1 armara seu plano vingativo: matar Beatriz sufocada dentro de um ba\u00fa em um dos labirintos do castelo real.<br \/>O \u00f3dio da esposa do rei se concretizou e a jovem dama foi atra\u00edda para um local subterr\u00e2neo, no qual deveria entrar em um ba\u00fa para procurar algo para sua senhora. Mal entrou e a pr\u00f3pria rainha a trancou e desapareceu. No entanto, por uma gra\u00e7a especial ou mesmo por um milagre, nossa jovem n\u00e3o morreu, mas recebeu consolo do c\u00e9u. Sim, a pr\u00f3pria Virgem Maria pareceu desenhar-se \u00e0 sua frente com um vestido branco, manto azul e v\u00e9u preto, assim como seria o h\u00e1bito da Ordem a nascer muitos anos depois.<br \/>Seu tio, Dom Jo\u00e3o de Menezes, saiu com a rainha \u00e0 procura da sobrinha e foi levado at\u00e9 o ba\u00fa no qual a monarca pensara ter asfixiado a jovem dama. Eis, por\u00e9m, que ao abrir a arca, Beatriz estava viva e, \u00e0s pressas, foi dali retirada pelo tio, ante o olhar pasmo de Isabel, e levada para um local seguro, depois de uma longa fuga pelas estradas espanholas. Partiram do pal\u00e1cio com destino ao mosteiro de S\u00e3o Domingos, das monjas cistercienses, em Toledo, a 250 km da resid\u00eancia real. Era o ano de 1451.<br \/>Com as monjas se sente feliz e, embora nunca desejasse ser uma cisterciense (nome proveniente de Cister, regi\u00e3o da Fran\u00e7a em que foi fundada a Ordem no ano de 1098), passou trinta anos na clausura, com um v\u00e9u cobrindo o rosto. Afinal \u2013 pensava nossa santa \u2013 aquelas faces que foram causas de tantas disc\u00f3rdias n\u00e3o deveriam ser vistas por mais ningu\u00e9m. Ela sabia das tramas e at\u00e9 das mortes que ocorriam nos ambientes palacianos, mas nada dizia, apenas rezava e perdoava o que a rainha lhe fez.<br \/>Em sua vida recolhida, desejava contentar a Imaculada. Como, no entanto, faz\u00ea-lo? Seu racioc\u00ednio era o seguinte: \u201cCristo continua a sua vida [oculta] de Nazar\u00e9&#8230; agora em todas as partes do mundo, onde houver um tabern\u00e1culo acalentado por uma lamparina. Ele procura substitutas de sua M\u00e3e que lhe fa\u00e7am companhia nas mil e uma nazar\u00e9s do mundo inteiro. \u2013 \u2018Que haja \u2018Marias!\u2019 Pensa Beatriz no seu interior, confiando no surgimento de uma Ordem consagrada \u00e0 Imaculada\u201d (Afonso de Santa Cruz. O pecado de ser bela. Ed. do Autor, 2008, p. 44-45).<br \/>A ora\u00e7\u00e3o de nossa santa n\u00e3o foi em v\u00e3o, como nenhuma ora\u00e7\u00e3o o \u00e9. Morto Dom Jo\u00e3o II, dona Isabel se casou com Dom Fernando de Arag\u00e3o e se tornou grande defensora da f\u00e9, de modo a receber o qualificativo de \u201cIsabel, a cat\u00f3lica\u201d. Foi nessa condi\u00e7\u00e3o que ela visitou a antiga dama a quem, antes, quisera matar, em Toledo, a fim de pedir-lhe perd\u00e3o e oferecer apoio ao seu projeto de fundar uma nova Ordem Religiosa na Igreja. A rainha pode ver aquele rosto, h\u00e1 tempos escondido, mas a ela desvelado. N\u00e3o estava envelhecido pelo passar dos anos. Parecia o da mesma jovem que Isabel conhecera h\u00e1 mais de trinta anos.<br \/>Frei Jo\u00e3o de Tolosa, franciscano, passou tamb\u00e9m nessa \u00e9poca a aconselhar Beatriz, e outras jovens foram surgindo para viverem o mesmo ideal a que ela se prop\u00f4s: ser para Cristo outra \u201cMaria\u201d que Lhe fa\u00e7a companhia como fez a Sua M\u00e3e em Nazar\u00e9, nos seus 30 anos de vida oculta, antes de iniciar seu minist\u00e9rio publicamente. Era o ano de 1484, quando nossa santa deixou o mosteiro cisterciense e se dirigiu, de rosto coberto, para o pal\u00e1cio de Galina, chamado a partir de ent\u00e3o de Convento da Santa F\u00e9, perto do Rio Tejo, com suas doze monjas. <br \/>A rainha Isabel se empenhou junto ao Papa para a aprova\u00e7\u00e3o da nova funda\u00e7\u00e3o. A Ordem foi aprovada, mas a Bula Papal de aprova\u00e7\u00e3o se perdeu em um naufr\u00e1gio. Sem esperan\u00e7as, s\u00f3 restava \u00e0s monjas rezarem; e eis que, mais uma vez, vem a divina resposta: algu\u00e9m entrega na porta do mosteiro um pacote. Ele \u00e9 levado a um respeit\u00e1vel sacerdote, o Pe. Garcia de Quijada, que o abre e atesta sua autenticidade: \u00e9 a Bula do Papa aprovando a nova Ordem.<br \/>Com a aprova\u00e7\u00e3o em m\u00e3os, o mesmo Pe. Quijada marcou a vesti\u00e7\u00e3o das primeiras religiosas para o dia 9 de agosto de 1492, mas Beatriz, redobrando suas preces ante o Sacr\u00e1rio, tamb\u00e9m \u201cmarcou\u201d a sua morte para esse mesmo dia. Se ela foi por muitos anos uma mulher invis\u00edvel, ser\u00e1 tamb\u00e9m a fundadora invis\u00edvel. Deixaria a Ordem para que outros a conduzissem.<br \/>Realmente, em 9 de agosto, a fundadora das Concepcionistas Franciscanas entregou sua alma c\u00e2ndida a Deus. Antes, o padre que lhe ministrou a Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos viu em sua testa a marca da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, ou seja, uma estrelinha que lembra o Apocalipse ao se referir \u00e0 mulher que traz uma coroa de doze estrelas (cf. Ap 12,1). Esta estrela \u00e9 um aut\u00eantico fen\u00f4meno m\u00edstico, dado que deixou a marca ap\u00f3s a morte, como atestou Dom Greg\u00f3rio Modrego, administrador apost\u00f3lico de Toledo, na exuma\u00e7\u00e3o do corpo que fora sepultado no pr\u00f3prio Convento de Santa F\u00e9. <br \/>As monjas, no entanto, com o passar dos tempos, por ordem da rainha Isabel, que recebera do Papa Alexandre VI a licen\u00e7a para reformar as Ordens religiosas da Espanha \u2013 como permitia a Lei do Padroado com a Igreja unida ao Estado \u2013 fez com que as filhas de Beatriz da Silva, passando por graves dificuldades de identidade, deixassem o carisma cisterciense e adotassem o esp\u00edrito de vida franciscano vivido at\u00e9 hoje em todo mundo, desde que por ele se espalharam a partir de 1507. A fundadora foi canonizada pelo Papa Paulo VI em 3 de outubro de 1976.<br \/>Sobre a raz\u00e3o de tantas jovens deixarem tudo ao longo dos tempos, inclusive no Brasil, para levar uma vida santa na clausura como monjas concepcionistas, chamadas de \u201cestrelas da Imaculada\u201d, escreve, de modo muito realista, o Pe. Afonso de Santa Cruz: \u201cAs estrelas da Imaculada fazem penit\u00eancia, mas com as cores brancas da alegria. S\u00e3o pobres com a riqueza da Imaculada. S\u00e3o obedientes em sintonia com a vontade de Deus. As voca\u00e7\u00f5es que brotam sob o manto da Imaculada n\u00e3o s\u00e3o frutos de fuga ou decep\u00e7\u00f5es, mas de fasc\u00ednios e atra\u00e7\u00f5es. A multiplica\u00e7\u00e3o das estrelas da Imaculada n\u00e3o est\u00e1 baseada num engodo psicol\u00f3gico ou enredo t\u00e9cnico, mas na simplicidade contagiante da Imaculada, que atrai uma por uma de suas estrelas\u201d (idem, p. 89-90).<br \/>Queiramos, pois, neste tempo em que estamos, jubilosos, terminando o Ano da Vida Consagrada convocado pelo Papa Francisco, louvar a Deus pelas m\u00e3os benditas de Nossa Senhora, pela exist\u00eancia dessas mulheres que, semelhantes a Maria, acompanham o Senhor Jesus nos nossos dias adorando-O, louvando-O e bendizendo-O em lugar de tantos que n\u00e3o O adoram, n\u00e3o O louvam e n\u00e3o O bendizem. <br \/>Possa o exemplo silencioso e escondido de Santa Beatriz da Silva e de suas filhas espirituais descortinar-nos os valores eternos e suscitar muitas em santas voca\u00e7\u00f5es no meio das concepcionistas, tamb\u00e9m entre n\u00f3s no Brasil, particularmente em nossa Igreja Metropolitana. <br \/>Santa Beatriz da Silva rogai por n\u00f3s!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os santos e as santas s\u00e3o homens e mulheres que a Igreja coloca como modelos da pr\u00e1tica das virtudes crist\u00e3s em grau heroico a cada um de n\u00f3s, a fim de que possamos imitar, com a gra\u00e7a de Deus, o seu modo de ser e agir. 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