{"id":12716,"date":"2015-12-18T12:31:38","date_gmt":"2015-12-18T14:31:38","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2015\/12\/18\/francisco-participa-da-ultima-pregacao-do-advento\/"},"modified":"2017-06-02T10:46:30","modified_gmt":"2017-06-02T13:46:30","slug":"francisco-participa-da-ultima-pregacao-do-advento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/francisco-participa-da-ultima-pregacao-do-advento\/","title":{"rendered":"Francisco participa da \u00faltima prega\u00e7\u00e3o do Advento"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/ossrom89392.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>O Papa meditou junto com seus colaboradores da C\u00faria Romana, na manh\u00e3 da sexta-feira (18\/12), as palavras do Pe. Raniero Cantalamessa na terceira prega\u00e7\u00e3o do Advento, dividida em tr\u00eas cap\u00edtulos.<\/p>\n<p>O tema da reflex\u00e3o foi a presen\u00e7a de \u201cMaria no Mist\u00e9rio de Cristo e da Igreja\u201d. Na primeira parte, analisou-se a mariologia na Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica Lumen gentium, de 1964.<\/p>\n<p>Ao recordar o que o Conc\u00edlio disse sobre isso, Pe. Cantalamessa destacou: \u201cJunto com o t\u00edtulo M\u00e3e de Deus e dos crentes, a outra categoria fundamental que o Conc\u00edlio usa para ilustrar o papel de Maria, \u00e9 a de modelo, ou de figura\u201d.<\/p>\n<p>Ecumenismo<\/p>\n<p>O segundo item abordou Nossa Senhora em uma perspectiva ecum\u00eanica. Aqui, Pe. Cantalamessa trouxe \u00e0 tona o exemplo dos escritos uma mulher evang\u00e9lica que fundou uma congrega\u00e7\u00e3o inspirada em Maria e citou Lutero \u2013 \u201cque at\u00e9 o fim de sua vida honrou Maria\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO racionalismo que admite s\u00f3 o que se pode compreender com a raz\u00e3o, difundindo-se, jogou fora das Igrejas evang\u00e9licas as festas de Maria e tudo o que se refere \u00e0 ela, e fez perder o sentido de toda refer\u00eancia b\u00edblica a Maria: e desta heran\u00e7a sofremos ainda hoje\u201d, citou o pregador da Casa Pontif\u00edcia.<\/p>\n<p>Por fim, Maria foi apresentada como m\u00e3e e filha da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>\u201cMaria \u00e9 m\u00e3e de miseric\u00f3rdia em um duplo sentido. Foi a porta atrav\u00e9s da qual a miseric\u00f3rdia de Deus, com Jesus, entrou no mundo, e agora \u00e9 a porta por meio da qual n\u00f3s entramos na miseric\u00f3rdia de Deus, nos apresentamos diante do \u2018trono da miseric\u00f3rdia\u2019 que \u00e9 a Trindade\u201d.<\/p>\n<p>Confira abaixo a \u00edntegra do texto da prega\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>1. A mariologia da Lumen gentium<\/p>\n<p>O objeto desta \u00faltima medita\u00e7\u00e3o de Advento \u00e9 o cap\u00edtulo VIII da Lumen Gentium, intitulado &#8220;A Bem-Aventurada Virgem Maria, no mist\u00e9rio de Cristo e da Igreja&#8221;. Ou\u00e7amos de novo o que o Conc\u00edlio fala a este respeito:<\/p>\n<p>&#8220;A Virgem Sant\u00edssima, predestinada para M\u00e3e de Deus desde toda a eternidade simultaneamente com a encarna\u00e7\u00e3o do Verbo, por disposi\u00e7\u00e3o da divina Provid\u00eancia foi na terra a nobre M\u00e3e do divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor. Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua f\u00e9, esperan\u00e7a e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. \u00c9 por esta raz\u00e3o nossa m\u00e3e na ordem da gra\u00e7a &#8220;.<\/p>\n<p>Junto com o t\u00edtulo M\u00e3e de Deus e dos crentes, a outra categoria fundamental que o Conc\u00edlio usa para ilustrar o papel de Maria, \u00e9 a de modelo, ou de figura:<\/p>\n<p>\u201cPelo dom e miss\u00e3o da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares gra\u00e7as e fun\u00e7\u00f5es, est\u00e1 tamb\u00e9m a Virgem intimamente ligada, \u00e0 Igreja: a M\u00e3e de Deus \u00e9 o tipo e a figura da Igreja, na ordem da f\u00e9, da caridade e da perfeita uni\u00e3o com Cristo, como j\u00e1 ensinava S. Ambr\u00f3sio &#8220;.<\/p>\n<p>A maior novidade do tratado conciliar sobre Nossa Senhora consiste, como se sabe, justamente no lugar em que foi colocado, ou seja, na constitui\u00e7\u00e3o sobre a Igreja. Com isso o Conc\u00edlio \u2013 n\u00e3o sem sofrimentos e l\u00e1grimas \u2013 operava uma profunda renova\u00e7\u00e3o da mariologia, em compara\u00e7\u00e3o com os \u00faltimos s\u00e9culos . O discurso sobre Maria n\u00e3o \u00e9 independente, como se ela ocupasse um lugar interm\u00e9dio entre Cristo e a Igreja, mas recolocado, como tinha sido na \u00e9poca dos Padres, no \u00e2mbito da Igreja. Maria \u00e9 vista, como dizia Santo Agostinho, como o membro mais excelente da Igreja, mas um membro dela, n\u00e3o fora, ou acima dela:<\/p>\n<p>&#8220;Santa \u00e9 Maria, bem-aventurada \u00e9 Maria, por\u00e9m, mais importante que a Virgem Maria \u00e9 a Igreja. Por qu\u00ea? Porque Maria \u00e9 uma parte da Igreja, um membro santo, excelente, superior a todos os demais, contudo, \u00e9 um membro de todo o corpo. Se \u00e9 um membro de todo o corpo, sem d\u00favida, \u00e9 importante que um membro \u00e9 o corpo \u201d.<\/p>\n<p>As duas realidades se iluminam mutuamente. Se, de fato, o discurso sobre a Igreja ilumina o que \u00e9 Maria, o discurso sobre Maria ilumina o que \u00e9 a Igreja, ou seja, \u201ccorpo de Cristo\u201d e, como tal, \u201cquase que uma extens\u00e3o da encarna\u00e7\u00e3o do Verbo\u201d. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II destaca isso na sua enc\u00edclica Redemptoris Mater: \u201cApresentando Maria no mist\u00e9rio de Cristo, o Conc\u00edlio Vaticano II encontra tamb\u00e9m o caminho para aprofundar o conhecimento do mist\u00e9rio da Igreja \u201d.<\/p>\n<p>Outra novidade da mariologia do Conc\u00edlio \u00e9 a insist\u00eancia na f\u00e9 de Maria , um tema tamb\u00e9m retomado e desenvolvido por Jo\u00e3o Paulo II que o faz tema central da sua enc\u00edclica mariana &#8220;Redemptoris Mater &#8220;. \u00c9 um retorno \u00e0 mariologia dos Padres que, mais do que sobre os privil\u00e9gios da Virgem, apela \u00e0 sua f\u00e9, como contribui\u00e7\u00e3o pessoal de Maria no mist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m aqui se nota a influ\u00eancia de Santo Agostinho:<\/p>\n<p>&#8220;Ora, at\u00e9 a pr\u00f3pria bem-aventurada Virgem Maria, ao crer, concebeu a quem deu \u00e0 luz crendo&#8230;Depois que o anjo falou, ela, cheia de f\u00e9 (fide plena), concebendo a Cristo antes no cora\u00e7\u00e3o que no ventre, respondeu: Eis aqui a Serva do Senhor, fa\u00e7a-se em mim segundo a vossa palavra\u201d.<\/p>\n<p>2. Maria M\u00e3e dos crentes em perspectiva ecum\u00eanica<\/p>\n<p>O que eu gostaria de fazer \u00e9 iluminar o car\u00e1ter ecum\u00eanico dessa mariologia do Conc\u00edlio, ou seja, como ela possa contribuir \u2013 e mais ainda, j\u00e1 est\u00e1 contribuindo \u2013 para aproximar cat\u00f3licos e protestantes neste terreno delicado e controverso que \u00e9 a devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Virgem.<\/p>\n<p>Esclare\u00e7o, em primeiro lugar, o princ\u00edpio que est\u00e1 na base das reflex\u00f5es a seguir. Se Maria se coloca fundamentalmente ao lado da Igreja, a consequ\u00eancia disso \u00e9 que as categorias e as afirma\u00e7\u00f5es b\u00edblicas usadas para lan\u00e7ar-lhe luz s\u00e3o aquelas relacionadas \u00e0s pessoas humanas que constituem a Igreja, aplicadas a ela \u201ca fortiori\u201d, em vez daquelas relacionadas \u00e0s pessoas divinas, aplicadas a ela \u201cpor redu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Para entender, por exemplo, da forma mais correta, o delicado conceito da media\u00e7\u00e3o de Maria na obra da salva\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais \u00fatil come\u00e7ar pela media\u00e7\u00e3o criatural, ou de baixo, como \u00e9 aquela de Abra\u00e3o, dos ap\u00f3stolos, dos sacramentos e da pr\u00f3pria Igreja, e n\u00e3o da media\u00e7\u00e3o divino-humana de Cristo. A maior dist\u00e2ncia, de fato, n\u00e3o \u00e9 a que existe entre Maria e o resto da Igreja, mas \u00e9 aquela que existe entre Maria e a Igreja, de um lado, e Cristo e a Trindade do outro, ou seja, entre as criaturas e o Criador.<\/p>\n<p>Agora, tiremos de tudo isso a conclus\u00e3o. Se Abra\u00e3o, pelo que fez, mereceu na B\u00edblia o nome de \u201cpai de todos n\u00f3s\u201d, ou seja, de todos os crentes (cf. Rm 4, 16; Lc 16, 24), entendemos melhor, assim, como a Igreja n\u00e3o hesita em chamar Maria \u201cM\u00e3e de todos n\u00f3s\u201d, m\u00e3e de todos os crentes.<\/p>\n<p>Dessa compara\u00e7\u00e3o entre Abra\u00e3o e Maria podemos derivar uma luz ainda maior, que afeta n\u00e3o s\u00f3 o simples t\u00edtulo, mas tamb\u00e9m o seu conte\u00fado e significado. M\u00e3e dos crentes \u00e9 um simples t\u00edtulo de honra, ou algo a mais? Aqui se prefigura a possibilidade de um discurso ecum\u00eanico sobre Maria. Calvino interpreta o texto onde Deus diz \u00e0 Abra\u00e3o: \u201cEm ti ser\u00e3o aben\u00e7oadas todas as fam\u00edlias da terra\u201d (Gn 12, 3), no sentido de que &#8220;Abra\u00e3o ser\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 exemplo e patrono, mas causa de ben\u00e7\u00e3o \u201d. Um conhecido exegeta protestante moderno escreve, no mesmo sentido:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s nos perguntamos se as palavras de G\u00eanesis 12, 3 [&#8220;Em ti ser\u00e3o aben\u00e7oadas todas as fam\u00edlias da terra &#8220;] pretendem afirmar somente que Abra\u00e3o se tornar\u00e1 uma esp\u00e9cie de f\u00f3rmula para aben\u00e7oar, e que a ben\u00e7\u00e3o que ele gozava passar\u00e1 em prov\u00e9rbio [&#8230;]. Deve-se retornar \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o tradicional que v\u00ea aquela palavra de Deus \u201ccomo uma ordem dada \u00e0 hist\u00f3ria\u201d (B. Jacob). Foi reservado \u00e0 Abra\u00e3o, no plano salv\u00edfico de Deus, o papel de mediador da ben\u00e7\u00e3o para todas as gera\u00e7\u00f5es da terra \u201d.<\/p>\n<p>Tudo isso nos ajuda a entender o que a tradi\u00e7\u00e3o, a partir de Santo Irineu, diz de Maria: que ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um exemplo de ben\u00e7\u00e3o e de salva\u00e7\u00e3o, mas, de uma forma que depende unicamente da gra\u00e7a e da vontade de Deus, tamb\u00e9m causa de salva\u00e7\u00e3o. \u201cComo Eva, escreve Santo Irineu, desobedecendo, tornou-se causa de morte para si e para todo o g\u00eanero humano, assim Maria&#8230;, obedecendo, tornou-se causa de salva\u00e7\u00e3o para si e para todo o g\u00eanero humano\u201d. As palavras de Maria: \u201cTodas as gera\u00e7\u00f5es me chamar\u00e3o de bem-aventurada\u201d (Lc 1, 48) devem ser consideradas, tamb\u00e9m, &#8220;uma ordem dada por Deus para a hist\u00f3ria&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 um fato encorajador verificar que os mesmos iniciadores da Reforma reconheceram \u00e0 Maria o t\u00edtulo e a prerrogativa de M\u00e3e, tamb\u00e9m no sentido de M\u00e3e nossa e m\u00e3e da salva\u00e7\u00e3o. Em uma prega\u00e7\u00e3o para a Missa de Natal, Lutero dizia: \u201cEste \u00e9 o consolo e a transbordante bondade de Deus: que o homem, em quanto crente, possa gloriar-se de um bem t\u00e3o precioso, que Maria seja a sua verdadeira m\u00e3e, Cristo o seu irm\u00e3o, Deus o seu Pai&#8230; Se acredita nisso, ent\u00e3o, sente-te verdadeiramente no ventre da virgem Maria e seja o seu filho querido \u201d. Zwingli, em um serm\u00e3o de 1524, chama Maria &#8220;a pura Virgem Maria, m\u00e3e da nossa salva\u00e7\u00e3o\u201d e diz que nunca, a seu respeito, \u201cpensou e nem sequer ensinou ou afirmou em p\u00fablico algo de \u00edmpio, desonroso, indigno ou ruim \u201d.<\/p>\n<p>Como, ent\u00e3o, chegamos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual de tanto desconforto dos irm\u00e3os protestantes com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Maria, a ponto de que em alguns ambientes tornou-se quase que um dever diminuir Maria, atacar continuamente neste ponto os cat\u00f3licos e, de qualquer forma, encobrir tudo o que a pr\u00f3pria escritura fala dela?<\/p>\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 o lugar para fazer uma revis\u00e3o hist\u00f3rica; somente quero dizer qual me parece ser o caminho correto para sair desta triste situa\u00e7\u00e3o sobre Maria. Tal caminho passa por um sincero reconhecimento, de n\u00f3s cat\u00f3licos, do fato que, muitas vezes, especialmente nos \u00faltimos s\u00e9culos, contribu\u00edmos para fazer Maria inaceit\u00e1vel para os irm\u00e3os protestantes, honrando-a de forma, \u00e0s vezes, exagerada e imprudente e, especialmente, n\u00e3o colocando tal devo\u00e7\u00e3o dentro de um quadro b\u00edblico bem claro que mostrasse o papel subordinado com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Palavra de Deus, ao Esp\u00edrito Santo e ao pr\u00f3prio Jesus. A mariologia nos \u00faltimos s\u00e9culos tornou-se uma f\u00e1brica cont\u00ednua de novos t\u00edtulos, novas devo\u00e7\u00f5es, muitas vezes pol\u00eamica com os protestantes, usando, \u00e0s vezes, Maria \u2013 a M\u00e3e comum! \u2013 como uma arma contra eles.<\/p>\n<p>A esta tend\u00eancia o Conc\u00edlio Vaticano II reagiu oportunamente. Ele recomendou que os fieis \u201ctanto nas palavras como nos fatos evitem diligentemente tudo o que possa induzir ao erro os irm\u00e3os separados ou qualquer outra pessoa, sobre a verdadeira doutrina da Igreja\u201d, e recordou aos pr\u00f3prios fieis que \u201ca verdadeira devo\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste nem em uma est\u00e9ril e passageiro sentimentalismo, nem em uma certa e v\u00e3 cren\u00e7a \u201d.<\/p>\n<p>Do lado protestante, acredito que exista a necessidade de tomar nota da influ\u00eancia negativa que houve, na atitude deles sobre Maria, n\u00e3o s\u00f3 a pol\u00eamica anticat\u00f3lica, mas tamb\u00e9m o racionalismo. Maria n\u00e3o \u00e9 uma ideia, mas \u00e9 uma pessoa concreta, uma mulher, e como tal, n\u00e3o se presta para ser facilmente teorizada ou reduzida a princ\u00edpio abstrato. Ela \u00e9 o pr\u00f3prio \u00edcone da simplicidade de Deus. Por isso n\u00e3o podia, em um clima dominado por um exasperado racionalismo, n\u00e3o ser eliminada do horizonte teol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Uma mulher luterana, morta h\u00e1 alguns anos, Madre Basilea Schlink, fundou uma comunidade de religiosas dentro da Igreja luterana, chamas \u201cAs irm\u00e3s de Maria\u201d, agora difundidas em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo. Em um livreto seu, que eu mesmo organizei a edi\u00e7\u00e3o italiana, depois de ter recordado v\u00e1rios textos de Lutero sobre Maria, escreve:<\/p>\n<p>&#8220;Ao ler as palavras de Lutero que at\u00e9 o fim da sua vida honrou Maria, santificou as suas festas e cantou todos os dias o Magnificat, sente-se o quanto se distanciou, no geral, da correta atitude sobre ele&#8230; Vemos o quanto n\u00f3s, evang\u00e9licos, nos deixamos submergir pelo racionalismo&#8230; O racionalismo que admite s\u00f3 o que se pode compreender com a raz\u00e3o, difundindo-se, jogou fora das Igrejas evang\u00e9licas as festas de Maria e tudo o que se refere \u00e0 ela, e fez perder o sentido de toda refer\u00eancia b\u00edblica a Maria: e desta heran\u00e7a sofremos ainda hoje. Se Lutero, com esta frase: \u2018Depois de Cristo ela \u00e9, em todo o cristianismo, a joia preciosa, jamais louvada o suficiente\u2019, nos inculca este elogio, eu, de minha parte, devo confessar de estar entre aqueles que, durante longos anos da pr\u00f3pria vida, n\u00e3o o fizeram, contornando at\u00e9 o que diz a Escritura: &#8220;De agora em diante todas as gera\u00e7\u00f5es me chamar\u00e3o bem-aventurada\u201d (Lc 1, 48). Eu n\u00e3o tinha me colocado entre estas gera\u00e7\u00f5es \u201d.<\/p>\n<p>Todas estas premissas nos permitem cultivar no cora\u00e7\u00e3o a esperan\u00e7a de que, um dia, n\u00e3o distante, cat\u00f3licos e protestantes possamos n\u00e3o estar mais divididos, mas unidos por Maria, em uma comum venera\u00e7\u00e3o, diferente nas formas, mas un\u00e2nimes no reconhecer nela a M\u00e3e de Deus e a M\u00e3e dos crentes. Eu tive a alegria de constatar pessoalmente alguns sinais desta mudan\u00e7a em ato. Em mais de uma ocasi\u00e3o, pude falar de Maria a um audit\u00f3rio protestante, notando entre os presentes n\u00e3o s\u00f3 a acolhida, mas, pelo menos em um caso, uma verdadeira emo\u00e7\u00e3o, como a redescoberta de algo caro e uma purifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>3. Maria, m\u00e3e e filha da miseric\u00f3rdia de Deus<\/p>\n<p>Deixemos agora de lado o discurso ecum\u00eanico e tentemos ver se tamb\u00e9m este ano da miseric\u00f3rdia n\u00e3o nos ajuda a descobrir algo novo da M\u00e3e de Deus. Maria \u00e9 invocada na antigu\u00edssima ora\u00e7\u00e3o da Salve Regina, como \u201cMater misericordiae\u201d, M\u00e3e da miseric\u00f3rdia; na mesma ora\u00e7\u00e3o lhe \u00e9 dirigida a invoca\u00e7\u00e3o: \u201cillos tuos misericordes oculos ad nos converte\u201d; Volte a n\u00f3s aqueles seus olhos misericordiosos\u201d. Na missa de abertura do ano jubilar na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, do passado 8 de dezembro, ao lado do altar estava exposto um antigo \u00edcone da M\u00e3e de Deus, venerada em um santu\u00e1rio pelos grego-cat\u00f3licos de Jaroslav, na Pol\u00f4nia, conhecida como a \u201cPorta da miseric\u00f3rdia\u201d.<\/p>\n<p>Maria \u00e9 m\u00e3e de miseric\u00f3rdia em um duplo sentido. Foi a porta atrav\u00e9s da qual a miseric\u00f3rdia de Deus, com Jesus, entrou no mundo, e agora \u00e9 a porta por meio da qual n\u00f3s entramos na miseric\u00f3rdia de Deus, nos apresentamos diante do \u201ctrono da miseric\u00f3rdia\u201d que \u00e9 a Trindade. Tudo isso \u00e9 verdade, mas \u00e9 s\u00f3 um aspecto da rela\u00e7\u00e3o entre Maria e a miseric\u00f3rdia de Deus. Ela, de fato, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 canal e mediadora da miseric\u00f3rdia de Deus; \u00e9 tamb\u00e9m o objeto e a primeira destinat\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aquela que nos obt\u00e9m miseric\u00f3rdia, mas tamb\u00e9m aquela que obteve, primeiramente e mais do que todos, miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Miseric\u00f3rdia \u00e9 sin\u00f4nimo de gra\u00e7a. S\u00f3 na Trindade o amor \u00e9 natureza e n\u00e3o \u00e9 gra\u00e7a; \u00e9 amor, mas n\u00e3o miseric\u00f3rdia. Que o Pai ame o Filho, n\u00e3o \u00e9 gra\u00e7a ou concess\u00e3o; \u00e9, em certo sentido, necessidade; o Pai tem necessidade de amar para existir como Pai. Que o Filho ame o Pai, n\u00e3o \u00e9 concess\u00e3o ou gra\u00e7a; \u00e9 necessidade intr\u00ednseca, embora se perfeitamente livre; ele precisa ser amado e amar para ser Filho. \u00c9 quando Deus cria o mundo e, nele, as criaturas livres que o seu amor se torna gratuito e imerecido, ou seja, gra\u00e7a e miseric\u00f3rdia. Isso antes ainda do pecado. O pecado far\u00e1 somente que a miseric\u00f3rdia de Deus, de dom, se torne perd\u00e3o.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo &#8220;cheia de gra\u00e7a&#8221; \u00e9, portanto, sin\u00f4nimo de &#8220;cheia de miseric\u00f3rdia&#8221;. Maria mesma proclama isso no Magnificat: &#8220;Olhou, diz, a humildade da sua serva\u201d, \u201crecordou-se da sua miseric\u00f3rdia\u201d; \u201ca sua miseric\u00f3rdia se estende de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o\u201d. Maria se sente benefici\u00e1ria da miseric\u00f3rdia, testemunha privilegiada dela. Nela a miseric\u00f3rdia de Deus n\u00e3o se materializou como perd\u00e3o dos pecados, mas como preserva\u00e7\u00e3o do pecado.<\/p>\n<p>Deus fez com ela, dizia Santa Teresa do Menino Jesus, o que faria um bom m\u00e9dico em tempos de epidemia. Ele vai de casa em casa para curar aqueles que contra\u00edram a infec\u00e7\u00e3o; mas se tem um pessoa que ele gosta especialmente, como a esposa ou a m\u00e3e, tentar\u00e1, se poss\u00edvel, que nem sequer seja contagiada. E assim fez Deus, preservando Maria do pecado original pelos m\u00e9ritos da paix\u00e3o do Filho.<\/p>\n<p>Falando da humanidade de Jesus, Santo Agostinho diz: &#8220;Com base no que, a humanidade de Jesus mereceu ser assumida pelo Verbo eterno do Pai na unidade da sua pessoa? Qual foi a sua boa obra que precedeu isso? O que tinha feito antes desse momento, no que tinha acreditado, ou pedido, para ser elevada a tal inef\u00e1vel dignidade?\u201d. E acrescentava em outro lugar: \u201cProcure o m\u00e9rito, procure a justi\u00e7a, reflita e veja se encontra outra coisa al\u00e9m de gra\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Estas palavras lan\u00e7am uma luz singular tamb\u00e9m sobre a pessoa de Maria. Dela deve-se dizer, com mais raz\u00e3o: o que fez Maria, para merecer o privil\u00e9gio de dar ao Verbo a sua humanidade? O que tinha acreditado, pedido, esperado ou sofrido, para vir ao mundo santa e imaculada? Procure tamb\u00e9m aqui, o m\u00e9rito, procure a justi\u00e7a, procure tudo o que quiser, e veja e encontra nela, no in\u00edcio, algo al\u00e9m de gra\u00e7a, ou seja, miseric\u00f3rdia!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m S\u00e3o Paulo n\u00e3o vai parar, durante toda a vida, de confessar-se como um fruto e um trof\u00e9u da miseric\u00f3rdia de Deus. Define-se \u201calgu\u00e9m que alcan\u00e7ou miseric\u00f3rdia do Senhor\u201d (1 Cor 7, 25). N\u00e3o se limita a formular a doutrina da miseric\u00f3rdia, mas torna-se testemunha viva dela: \u201cEu era um blasfemo, um perseguidor e um violento. Mas fui tratado com miseric\u00f3rdia\u201d (1 Tm 1, 12).<\/p>\n<p>Maria e o Ap\u00f3stolo nos ensinam que o melhor modo de pregar a miseric\u00f3rdia \u00e9 dar testemunho da miseric\u00f3rdia que Deus teve conosco. Sentir-nos tamb\u00e9m n\u00f3s frutos da miseric\u00f3rdia de Deus em Cristo Jesus, vive s\u00f3 por ela. (Sentir, n\u00e3o necessariamente dizer). Um dia Jesus curou um pobrezinho possu\u00eddo por um esp\u00edrito imundo. Ele quis segui-Lo e unir-se ao grupo dos disc\u00edpulos; Jesus n\u00e3o o permitiu, mas lhe disse: \u201cVolte para a sua casa, para os seus, anuncie-lhes o que o Senhor te fez e a miseric\u00f3rdia que teve contigo\u201d (Mc 5,19 s.).<\/p>\n<p>Maria, que no Magnificat glorifica e agradece a Deus por sua miseric\u00f3rdia com ela, nos convida a fazer o mesmo neste ano da miseric\u00f3rdia. Nos convida a fazer ressoar todos os dias na Igreja o seu c\u00e2ntico, como o coro que repete um canto atr\u00e1s da coryphaea. Permitam-me, portanto, convid\u00e1-los a proclamar jutos, de p\u00e9, como ora\u00e7\u00e3o final, em vez da ant\u00edfona mariana, o c\u00e2ntico \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus que \u00e9 o Magnificat. \u201cA minha alma engradece ao Senhor&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Santo Padre, Vener\u00e1veis Padres, irm\u00e3os e irm\u00e3s: Feliz Natal e Feliz Ano da miseric\u00f3rdia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: R\u00e1dio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa meditou junto com seus colaboradores da C\u00faria Romana, na manh\u00e3 da sexta-feira (18\/12), as palavras do Pe. Raniero Cantalamessa na terceira prega\u00e7\u00e3o do Advento, dividida em tr\u00eas cap\u00edtulos. O tema da reflex\u00e3o foi a presen\u00e7a de \u201cMaria no Mist\u00e9rio de Cristo e da Igreja\u201d. 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