{"id":12668,"date":"2015-12-15T18:09:42","date_gmt":"2015-12-15T20:09:42","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2015\/12\/15\/qvence-a-indiferenca-e-conquista-a-pazq-o-texto-na-integra\/"},"modified":"2017-06-02T09:29:20","modified_gmt":"2017-06-02T12:29:20","slug":"qvence-a-indiferenca-e-conquista-a-pazq-o-texto-na-integra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/qvence-a-indiferenca-e-conquista-a-pazq-o-texto-na-integra\/","title":{"rendered":"&#8220;Vence a indiferen\u00e7a e conquista a paz&#8221;: o texto na \u00edntegra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/reuters591041_articolo.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Foi apresentada na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira (15\/12), a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz, que tem o tema &#8220;Vence a indiferen\u00e7a e conquista a paz&#8221;. O Dia \u00e9 celebrado em 1o de janeiro. Abaixo, publicamos o texto integral da mensagem, em portugu\u00eas, como divulgado pelo Vaticano.<\/p>\n<p>1.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Deus n\u00e3o \u00e9 indiferente; importa-Lhe a humanidade! Deus n\u00e3o a abandona! Com esta minha profunda convic\u00e7\u00e3o, quero, no in\u00edcio do novo ano, formular votos de paz e b\u00ean\u00e7\u00e3os abundantes, sob o signo da esperan\u00e7a, para o futuro de cada homem e mulher, de cada fam\u00edlia, povo e na\u00e7\u00e3o do mundo, e tamb\u00e9m dos chefes de Estado e de governo e dos respons\u00e1veis das religi\u00f5es. Com efeito, n\u00e3o perdemos a esperan\u00e7a de que o ano de 2016 nos veja a todos firme e confiadamente empenhados, nos diferentes n\u00edveis, a realizar a justi\u00e7a e a trabalhar pela paz. Na verdade, esta \u00e9 dom de Deus e trabalho dos homens; a paz \u00e9 dom de Deus, mas confiado a todos os homens e a todas as mulheres, que s\u00e3o chamados a realiz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Conservar as raz\u00f5es da esperan\u00e7a<\/p>\n<p>2.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Embora o ano passado tenha sido caracterizado, do princ\u00edpio ao fim, por guerras e actos terroristas, com as suas tr\u00e1gicas consequ\u00eancias de sequestros de pessoas, persegui\u00e7\u00f5es por motivos \u00e9tnicos ou religiosos, prevarica\u00e7\u00f5es, multiplicando-se cruelmente em muitas regi\u00f5es do mundo, a ponto de assumir os contornos daquela que se poderia chamar uma \u00abterceira guerra mundial por peda\u00e7os\u00bb, todavia alguns acontecimentos dos \u00faltimos anos e tamb\u00e9m do ano passado incitam-me, com o novo ano em vista, a renovar a exorta\u00e7\u00e3o a n\u00e3o perder a esperan\u00e7a na capacidade que o homem tem, com a gra\u00e7a de Deus, de superar o mal, n\u00e3o se rendendo \u00e0 resigna\u00e7\u00e3o nem \u00e0 indiferen\u00e7a. Tais acontecimentos representam a capacidade de a humanidade agir solidariamente, perante as situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, superando os interesses individualistas, a apatia e a indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Dentre tais acontecimentos, quero recordar o esfor\u00e7o feito para favorecer o encontro dos l\u00edderes mundiais, no \u00e2mbito da Cop21, a fim de se procurar novos caminhos para enfrentar as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e salvaguardar o bem-estar da terra, a nossa casa comum. E isto remete para mais dois acontecimentos anteriores de n\u00edvel mundial: a Cimeira de Adis-Abeba para arrecada\u00e7\u00e3o de fundos destinados ao desenvolvimento sustent\u00e1vel do mundo; e a adop\u00e7\u00e3o, por parte das Na\u00e7\u00f5es Unidas, da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, que visa assegurar, at\u00e9 ao referido ano, uma exist\u00eancia mais digna para todos, sobretudo para as popula\u00e7\u00f5es pobres da terra.<\/p>\n<p>O ano de 2015 foi um ano especial para a Igreja, nomeadamente porque registou o cinquenten\u00e1rio da publica\u00e7\u00e3o de dois documentos do Conc\u00edlio Vaticano II que exprimem, de forma muito eloquente, o sentido de solidariedade da Igreja com o mundo. O Papa Jo\u00e3o XXIII, no in\u00edcio do Conc\u00edlio, quis escancarar as janelas da Igreja, para que houvesse, entre ela e o mundo, uma comunica\u00e7\u00e3o mais aberta. Os dois documentos \u2013 Nostra aetate e Gaudium et spes \u2013 s\u00e3o express\u00f5es emblem\u00e1ticas da nova rela\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo, solidariedade e conviv\u00eancia que a Igreja pretendia introduzir no interior da humanidade. Na Declara\u00e7\u00e3o Nostra aetate, a Igreja foi chamada a abrir-se ao di\u00e1logo com as express\u00f5es religiosas n\u00e3o-crist\u00e3s. Na Constitui\u00e7\u00e3o pastoral Gaudium et spes \u2013 dado que \u00abas alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, s\u00e3o tamb\u00e9m as alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos disc\u00edpulos de Cristo\u00bb[1] \u2013, a Igreja desejava estabelecer um di\u00e1logo com a fam\u00edlia humana sobre os problemas do mundo, como sinal de solidariedade, respeito e amor.[2]<\/p>\n<p>Nesta mesma perspectiva, com o Jubileu da Miseric\u00f3rdia, quero convidar a Igreja a rezar e trabalhar para que cada crist\u00e3o possa maturar um cora\u00e7\u00e3o humilde e compassivo, capaz de anunciar e testemunhar a miseric\u00f3rdia, de \u00abperdoar e dar\u00bb, de abrir-se \u00ab\u00e0queles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contempor\u00e2neo cria de forma dram\u00e1tica\u00bb, sem cair \u00abna indiferen\u00e7a que humilha, na habitua\u00e7\u00e3o que anestesia o esp\u00edrito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destr\u00f3i\u00bb.[3]<\/p>\n<p>Variadas s\u00e3o as raz\u00f5es para crer na capacidade que a humanidade tem de agir, conjunta e solidariamente, reconhecendo a pr\u00f3pria interliga\u00e7\u00e3o e interdepend\u00eancia e tendo a peito os membros mais fr\u00e1geis e a salvaguarda do bem comum. Esta atitude de solid\u00e1ria corresponsabilidade est\u00e1 na raiz da voca\u00e7\u00e3o fundamental \u00e0 fraternidade e \u00e0 vida comum. A dignidade e as rela\u00e7\u00f5es interpessoais constituem-nos como seres humanos, queridos por Deus \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a. Como criaturas dotadas de inalien\u00e1vel dignidade, existimos relacionando-nos com os nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s, pelos quais somos respons\u00e1veis e com os quais agimos solidariamente. Fora desta rela\u00e7\u00e3o, passar\u00edamos a ser menos humanos. \u00c9 por isso mesmo que a indiferen\u00e7a constitui uma amea\u00e7a para a fam\u00edlia humana. No limiar dum novo ano, quero convidar a todos para que reconhe\u00e7am este facto a fim de se vencer a indiferen\u00e7a e conquistar a paz.<\/p>\n<p>Algumas formas de indiferen\u00e7a<\/p>\n<p>3.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o comportamento do indiv\u00edduo indiferente, de quem fecha o cora\u00e7\u00e3o desinteressando-se dos outros, de quem fecha os olhos para n\u00e3o ver o que sucede ao seu redor ou se esquiva para n\u00e3o ser abalroado pelos problemas alheios, caracteriza uma tipologia humana bastante difundida e presente em cada \u00e9poca da hist\u00f3ria; mas, hoje em dia, superou decididamente o \u00e2mbito individual para assumir uma dimens\u00e3o global, gerando o fen\u00f3meno da \u00abglobaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a\u00bb.<\/p>\n<p>A primeira forma de indiferen\u00e7a na sociedade humana \u00e9 a indiferen\u00e7a para com Deus, da qual deriva tamb\u00e9m a indiferen\u00e7a para com o pr\u00f3ximo e a cria\u00e7\u00e3o. Trata-se de um dos graves efeitos dum falso humanismo e do materialismo pr\u00e1tico, combinados com um pensamento relativista e niilista. O homem pensa que \u00e9 o autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade; sente-se auto-suficiente e visa n\u00e3o s\u00f3 ocupar o lugar de Deus, mas prescindir completamente d\u2019Ele; consequentemente, pensa que n\u00e3o deve nada a ningu\u00e9m, excepto a si mesmo, e pretende ter apenas direitos.[4] Contra esta err\u00f3nea compreens\u00e3o que a pessoa tem de si mesma, Bento XVI recordava que nem o homem nem o seu desenvolvimento s\u00e3o capazes, por si mesmos, de se atribuir o pr\u00f3prio significado \u00faltimo;[5] e, antes dele, Paulo VI afirmara que \u00abn\u00e3o h\u00e1 verdadeiro humanismo sen\u00e3o o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma voca\u00e7\u00e3o que exprime a ideia exacta do que \u00e9 a vida humana\u00bb.[6]<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a para com o pr\u00f3ximo assume diferentes fisionomias. H\u00e1 quem esteja bem informado, ou\u00e7a o r\u00e1dio, leia os jornais ou veja programas de televis\u00e3o, mas f\u00e1-lo de maneira entorpecida, quase numa condi\u00e7\u00e3o de rendi\u00e7\u00e3o: estas pessoas conhecem vagamente os dramas que afligem a humanidade, mas n\u00e3o se sentem envolvidas, n\u00e3o vivem a compaix\u00e3o. Este \u00e9 o comportamento de quem sabe, mas mant\u00e9m o olhar, o pensamento e a ac\u00e7\u00e3o voltados para si mesmo. Infelizmente, temos de constatar que o aumento das informa\u00e7\u00f5es, pr\u00f3prio do nosso tempo, n\u00e3o significa, de por si, aumento de aten\u00e7\u00e3o aos problemas, se n\u00e3o for acompanhado por uma abertura das consci\u00eancias em sentido solid\u00e1rio.[7] Antes, pode gerar uma certa satura\u00e7\u00e3o que anestesia e, em certa medida, relativiza a gravidade dos problemas. \u00abAlguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos pr\u00f3prios males, os pobres e os pa\u00edses pobres, com generaliza\u00e7\u00f5es indevidas, e pretendem encontrar a solu\u00e7\u00e3o numa \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os exclu\u00eddos v\u00eaem crescer este c\u00e2ncer social que \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o profundamente radicada em muitos pa\u00edses \u2013 nos seus governos, empres\u00e1rios e institui\u00e7\u00f5es \u2013 seja qual for a ideologia pol\u00edtica dos governantes\u00bb.[8]<\/p>\n<p>Noutros casos, a indiferen\u00e7a manifesta-se como falta de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade circundante, especialmente a mais distante. Algumas pessoas preferem n\u00e3o indagar, n\u00e3o se informar e vivem o seu bem-estar e o seu conforto, surdas ao grito de ang\u00fastia da humanidade sofredora. Quase sem nos dar conta, torn\u00e1mo-nos incapazes de sentir compaix\u00e3o pelos outros, pelos seus dramas; n\u00e3o nos interessa ocupar-nos deles, como se aquilo que lhes sucede fosse responsabilidade alheia, que n\u00e3o nos compete.[9] \u00abQuando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), n\u00e3o nos interessam os seus problemas, nem as tribula\u00e7\u00f5es e injusti\u00e7as que sofrem; e, assim, o nosso cora\u00e7\u00e3o cai na indiferen\u00e7a: encontrando-me relativamente bem e confort\u00e1vel, esque\u00e7o-me dos que n\u00e3o est\u00e3o bem\u00bb.[10]<\/p>\n<p>Vivendo n\u00f3s numa casa comum, n\u00e3o podemos deixar de nos interrogar sobre o seu estado de sa\u00fade, como procurei fazer na Carta enc\u00edclica Laudato si\u2019. A polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e do ar, a explora\u00e7\u00e3o indiscriminada das florestas, a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente s\u00e3o, muitas vezes, resultado da indiferen\u00e7a do homem pelos outros, porque tudo est\u00e1 relacionado. E de igual modo o comportamento do homem com os animais influi sobre as suas rela\u00e7\u00f5es com os outros,[11] para n\u00e3o falar de quem se permite fazer noutros lugares aquilo que n\u00e3o ousa fazer em sua casa.[12]<\/p>\n<p>Nestes e noutros casos, a indiferen\u00e7a provoca sobretudo fechamento e desinteresse, acabando assim por contribuir para a falta de paz com Deus, com o pr\u00f3ximo e com a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A paz amea\u00e7ada pela indiferen\u00e7a globalizada<\/p>\n<p>4.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A indiferen\u00e7a para com Deus supera a esfera \u00edntima e espiritual da pessoa individual e investe a esfera p\u00fablica e social. Como afirmava Bento XVI, \u00abh\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o \u00edntima entre a glorifica\u00e7\u00e3o de Deus e a paz dos homens na terra\u00bb.[13] Com efeito, \u00absem uma abertura ao transcendente, o homem cai como presa f\u00e1cil do relativismo e, consequentemente, torna-se-lhe dif\u00edcil agir de acordo com a justi\u00e7a e comprometer-se pela paz\u00bb.[14] O esquecimento e a nega\u00e7\u00e3o de Deus, que induzem o homem a n\u00e3o reconhecer qualquer norma acima de si pr\u00f3prio e a tomar como norma apenas a si mesmo, produziram crueldade e viol\u00eancia sem medida.[15]<\/p>\n<p>A n\u00edvel individual e comunit\u00e1rio, a indiferen\u00e7a para com o pr\u00f3ximo \u2013 filha da indiferen\u00e7a para com Deus \u2013 assume as fei\u00e7\u00f5es da in\u00e9rcia e da apatia, que alimentam a persist\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a e grave desequil\u00edbrio social, as quais podem, por sua vez, levar a conflitos ou de qualquer modo gerar um clima de descontentamento que amea\u00e7a desembocar, mais cedo ou mais tarde, em viol\u00eancias e inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p> Neste sentido, a indiferen\u00e7a e consequente desinteresse constituem uma grave falta ao dever que cada pessoa tem de contribuir \u2013 na medida das suas capacidades e da fun\u00e7\u00e3o que desempenha na sociedade \u2013 para o bem comum, especialmente para a paz, que \u00e9 um dos bens mais preciosos da humanidade.[16]<\/p>\n<p>Depois, quando investe o n\u00edvel institucional, a indiferen\u00e7a pelo outro, pela sua dignidade, pelos seus direitos fundamentais e pela sua liberdade, de bra\u00e7o dado com uma cultura orientada para o lucro e o hedonismo, favorece e \u00e0s vezes justifica ac\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas que acabam por constituir amea\u00e7as \u00e0 paz. Este comportamento de indiferen\u00e7a pode chegar inclusivamente a justificar algumas pol\u00edticas econ\u00f3micas deplor\u00e1veis, precursoras de injusti\u00e7as, divis\u00f5es e viol\u00eancias, que visam a consecu\u00e7\u00e3o do bem-estar pr\u00f3prio ou o da na\u00e7\u00e3o. Com efeito, n\u00e3o \u00e9 raro que os projectos econ\u00f3micos e pol\u00edticos dos homens tenham por finalidade a conquista ou a manuten\u00e7\u00e3o do poder e das riquezas, mesmo \u00e0 custa de espezinhar os direitos e as exig\u00eancias fundamentais dos outros. Quando as popula\u00e7\u00f5es v\u00eaem negados os seus direitos elementares, como o alimento, a \u00e1gua, os cuidados de sa\u00fade ou o trabalho, sentem-se tentadas a obt\u00ea-los pela for\u00e7a.[17]<\/p>\n<p>Por fim, a indiferen\u00e7a pelo ambiente natural, favorecendo o desflorestamento, a polui\u00e7\u00e3o e as cat\u00e1strofes naturais que desenra\u00edzam comunidades inteiras do seu ambiente de vida, constrangendo-as \u00e0 precariedade e \u00e0 inseguran\u00e7a, cria novas pobrezas, novas situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a com consequ\u00eancias muitas vezes desastrosas em termos de seguran\u00e7a e paz social. Quantas guerras foram movidas e quantas ainda ser\u00e3o travadas por causa da falta de recursos ou para responder \u00e0 demanda insaci\u00e1vel de recursos naturais?[18]<\/p>\n<p>Da indiferen\u00e7a \u00e0 miseric\u00f3rdia: a convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>5.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando, h\u00e1 um ano \u2013 na Mensagem para o Dia Mundial da Paz intitulada \u00abj\u00e1 n\u00e3o escravos, mas irm\u00e3os\u00bb \u2013, evoquei o primeiro \u00edcone b\u00edblico da fraternidade humana, o \u00edcone de Caim e Abel (cf. Gn 4, 1-16), fi-lo para evidenciar o modo como foi tra\u00edda esta primeira fraternidade. Caim e Abel s\u00e3o irm\u00e3os. Prov\u00eam ambos do mesmo ventre, s\u00e3o iguais em dignidade e criados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus; mas a sua fraternidade de criaturas quebra-se. \u00abCaim n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o suporta o seu irm\u00e3o Abel, mas mata-o por inveja\u00bb.[19] E assim o fratric\u00eddio torna-se a forma de trai\u00e7\u00e3o, sendo a rejei\u00e7\u00e3o, por parte de Caim, da fraternidade de Abel a primeira ruptura nas rela\u00e7\u00f5es familiares de fraternidade, solidariedade e respeito m\u00fatuo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Deus interv\u00e9m para chamar o homem \u00e0 responsabilidade para com o seu semelhante, precisamente como fizera quando Ad\u00e3o e Eva, os primeiros pais, quebraram a comunh\u00e3o com o Criador. \u00abO Senhor disse a Caim: \u201cOnde est\u00e1 o teu irm\u00e3o Abel?\u201d Caim respondeu: \u201cN\u00e3o sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irm\u00e3o?\u201d O Senhor replicou: \u201cQue fizeste? A voz do sangue do teu irm\u00e3o clama da terra at\u00e9 Mim\u201d\u00bb (Gn 4, 9-10).<\/p>\n<p> Caim diz que n\u00e3o sabe o que aconteceu ao seu irm\u00e3o, diz que n\u00e3o \u00e9 o seu guardi\u00e3o. N\u00e3o se sente respons\u00e1vel pela sua vida, pelo seu destino. N\u00e3o se sente envolvido. \u00c9-lhe indiferente o seu irm\u00e3o, apesar de ambos estarem ligados pela origem comum. Que tristeza! Que drama fraterno, familiar, humano! Esta \u00e9 a primeira manifesta\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a entre irm\u00e3os. Deus, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 indiferente: o sangue de Abel tem grande valor aos seus olhos e pede contas dele a Caim. Assim, Deus revela-Se, desde o in\u00edcio da humanidade, como Aquele que se interessa pelo destino do homem. Quando, mais tarde, os filhos de Israel se encontram na escravid\u00e3o do Egipto, Deus interv\u00e9m de novo. Diz a Mois\u00e9s: \u00abEu bem vi a opress\u00e3o do meu povo que est\u00e1 no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores; conhe\u00e7o, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da m\u00e3o dos eg\u00edpcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espa\u00e7osa, para uma terra que mana leite e mel\u00bb (Ex 3, 7-8). \u00c9 importante notar os verbos que descrevem a interven\u00e7\u00e3o de Deus: Ele observa, ouve, conhece, desce, liberta. Deus n\u00e3o \u00e9 indiferente. Est\u00e1 atento e age.<\/p>\n<p> De igual modo, no seu Filho Jesus, Deus desceu ao meio dos homens, encarnou e mostrou-Se solid\u00e1rio com a humanidade em tudo, excepto no pecado. Jesus identificava-Se com a humanidade: \u00abo primog\u00e9nito de muitos irm\u00e3os\u00bb (Rm 8, 29). N\u00e3o se contentava em ensinar \u00e0s multid\u00f5es, mas preocupava-Se com elas, especialmente quando as via famintas (cf. Mc 6, 34-44) ou sem trabalho (cf. Mt 20, 3). O seu olhar n\u00e3o Se fixava apenas nos seres humanos, mas tamb\u00e9m nos peixes do mar, nas aves do c\u00e9u, na erva e nas \u00e1rvores, pequenas e grandes; abra\u00e7ava a cria\u00e7\u00e3o inteira. Ele v\u00ea sem d\u00favida, mas n\u00e3o Se limita a isso, pois toca as pessoas, fala com elas, age em seu favor e faz bem a quem precisa. Mais ainda, deixa-Se comover e chora (cf. Jo 11, 33-44). E age para acabar com o sofrimento, a tristeza, a mis\u00e9ria e a morte.<\/p>\n<p>Jesus ensina-nos a ser misericordiosos como o Pai (cf. Lc 6, 36). Na par\u00e1bola do bom samaritano (cf. Lc 10, 29-37), denuncia a omiss\u00e3o de ajuda numa necessidade urgente dos seus semelhantes: \u00abao v\u00ea-lo, passou adiante\u00bb (Lc 10, 32). Ao mesmo tempo, com este exemplo, convida os seus ouvintes, e particularmente os seus disc\u00edpulos, a aprenderem a parar junto dos sofrimentos deste mundo para os aliviar, junto das feridas dos outros para as tratar com os recursos de que disponham, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio tempo apesar das muitas ocupa\u00e7\u00f5es. Na realidade, muitas vezes a indiferen\u00e7a procura pretextos: na observ\u00e2ncia dos preceitos rituais, na quantidade de coisas que \u00e9 preciso fazer, nos antagonismos que nos mant\u00eam longe uns dos outros, nos preconceitos de todo o g\u00e9nero que impedem de nos fazermos pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p> A miseric\u00f3rdia \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o de Deus. Por isso deve ser tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o de todos aqueles que se reconhecem membros da \u00fanica grande fam\u00edlia dos seus filhos; um cora\u00e7\u00e3o que bate forte onde quer que esteja em jogo a dignidade humana, reflexo do rosto de Deus nas suas criaturas. Jesus adverte-nos: o amor aos outros \u2013 estrangeiros, doentes, encarcerados, pessoas sem-abrigo, at\u00e9 inimigos \u2013 \u00e9 a unidade de medida de Deus para julgar as nossas ac\u00e7\u00f5es. Disso depende o nosso destino eterno. N\u00e3o \u00e9 de admirar que o ap\u00f3stolo Paulo convide os crist\u00e3os de Roma a alegrar-se com os que se alegram e a chorar com os que choram (cf. Rm 12, 15), ou recomende aos de Corinto que organizem colectas em sinal de solidariedade com os membros sofredores da Igreja (cf. 1 Cor 16, 2-3). E S\u00e3o Jo\u00e3o escreve: \u00abSe algu\u00e9m possuir bens deste mundo e, vendo o seu irm\u00e3o com necessidade, lhe fechar o seu cora\u00e7\u00e3o, como \u00e9 que o amor de Deus pode permanecer nele?\u00bb (1 Jo 3, 17; cf. Tg 2, 15-16).<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que \u00ab\u00e9 determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu an\u00fancio que viva e testemunhe, ela mesma, a miseric\u00f3rdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no cora\u00e7\u00e3o das pessoas e desafi\u00e1-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar miseric\u00f3rdia. A primeira verdade da Igreja \u00e9 o amor de Cristo. E, deste amor que vai at\u00e9 ao perd\u00e3o e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, a\u00ed deve ser evidente a miseric\u00f3rdia do Pai. Nas nossas par\u00f3quias, nas comunidades, nas associa\u00e7\u00f5es e nos movimentos \u2013 em suma, onde houver crist\u00e3os \u2013, qualquer pessoa deve poder encontrar um o\u00e1sis de miseric\u00f3rdia\u00bb.[20]<\/p>\n<p> Deste modo, tamb\u00e9m n\u00f3s somos chamados a fazer do amor, da compaix\u00e3o, da miseric\u00f3rdia e da solidariedade um verdadeiro programa de vida, um estilo de comportamento nas rela\u00e7\u00f5es de uns com os outros.[21] Isto requer a convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, que a gra\u00e7a de Deus transforme o nosso cora\u00e7\u00e3o de pedra num cora\u00e7\u00e3o de carne (cf. Ez 36, 26), capaz de se abrir aos outros com aut\u00eantica solidariedade. Com efeito, esta \u00e9 muito mais do que um \u00absentimento de compaix\u00e3o vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, pr\u00f3ximas ou distantes\u00bb.[22] A solidariedade \u00ab\u00e9 a determina\u00e7\u00e3o firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos n\u00f3s somos verdadeiramente respons\u00e1veis por todos\u00bb,[23] porque a compaix\u00e3o brota da fraternidade.<\/p>\n<p>Assim entendida, a solidariedade constitui a atitude moral e social que melhor d\u00e1 resposta \u00e0 tomada de consci\u00eancia das chagas do nosso tempo e da ineg\u00e1vel interdepend\u00eancia que se verifica cada vez mais, especialmente num mundo globalizado, entre a vida do indiv\u00edduo e da sua comunidade num determinado lugar e a de outros homens e mulheres no resto do mundo.[24]<\/p>\n<p>Fomentar uma cultura de solidariedade e miseric\u00f3rdia para se vencer a indiferen\u00e7a<\/p>\n<p>6.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A solidariedade como virtude moral e comportamento social, fruto da convers\u00e3o pessoal, requer empenho por parte duma multiplicidade de sujeitos que det\u00eam responsabilidades de car\u00e1cter educativo e formativo.<\/p>\n<p>Penso em primeiro lugar nas fam\u00edlias, chamadas a uma miss\u00e3o educativa prim\u00e1ria e imprescind\u00edvel. Constituem o primeiro lugar onde se vivem e transmitem os valores do amor e da fraternidade, da conviv\u00eancia e da partilha, da aten\u00e7\u00e3o e do cuidado pelo outro. S\u00e3o tamb\u00e9m o espa\u00e7o privilegiado para a transmiss\u00e3o da f\u00e9, a come\u00e7ar por aqueles primeiros gestos simples de devo\u00e7\u00e3o que as m\u00e3es ensinam aos filhos.[25]<\/p>\n<p>Quanto aos educadores e formadores que t\u00eam a dif\u00edcil tarefa de educar as crian\u00e7as e os jovens, na escola ou nos v\u00e1rios centros de agrega\u00e7\u00e3o infantil e juvenil, devem estar cientes de que a sua responsabilidade envolve as dimens\u00f5es moral, espiritual e social da pessoa. Os valores da liberdade, respeito m\u00fatuo e solidariedade podem ser transmitidos desde a mais tenra idade. Dirigindo-se aos respons\u00e1veis das institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam fun\u00e7\u00f5es educativas, Bento XVI afirmava: \u00abPossa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de di\u00e1logo, coes\u00e3o e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irm\u00e3os. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia ap\u00f3s dia a caridade e a compaix\u00e3o para com o pr\u00f3ximo e de participar activamente na constru\u00e7\u00e3o duma sociedade mais humana e fraterna\u00bb.[26]<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os agentes culturais e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social t\u00eam responsabilidades no campo da educa\u00e7\u00e3o e da forma\u00e7\u00e3o, especialmente na sociedade actual onde se vai difundindo cada vez mais o acesso a instrumentos de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o. Antes de mais nada, \u00e9 dever deles colocar-se ao servi\u00e7o da verdade e n\u00e3o de interesses particulares. Com efeito, os meios de comunica\u00e7\u00e3o \u00abn\u00e3o s\u00f3 informam, mas tamb\u00e9m formam o esp\u00edrito dos seus destinat\u00e1rios e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educa\u00e7\u00e3o dos jovens. \u00c9 importante ter presente a liga\u00e7\u00e3o estreit\u00edssima que existe entre educa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o: de facto, a educa\u00e7\u00e3o realiza-se por meio da comunica\u00e7\u00e3o, que influi positiva ou negativamente na forma\u00e7\u00e3o da pessoa\u00bb.[27] Os agentes culturais e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social deveriam tamb\u00e9m vigiar por que seja sempre l\u00edcito, jur\u00eddica e moralmente, o modo como se obt\u00eam e divulgam as informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A paz, fruto duma cultura de solidariedade, miseric\u00f3rdia e compaix\u00e3o<\/p>\n<p>7.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conscientes da amea\u00e7a duma globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a, n\u00e3o podemos deixar de reconhecer que, no cen\u00e1rio acima descrito, inserem-se tamb\u00e9m numerosas iniciativas e ac\u00e7\u00f5es positivas que testemunham a compaix\u00e3o, a miseric\u00f3rdia e a solidariedade de que o homem \u00e9 capaz.<\/p>\n<p>Quero recordar alguns exemplos de louv\u00e1vel empenho, que demonstram como cada um pode vencer a indiferen\u00e7a, quando opta por n\u00e3o afastar o olhar do seu pr\u00f3ximo, e constituem passos salutares no caminho rumo a uma sociedade mais humana.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais e grupos s\u00f3cio-caritativos, dentro da Igreja e fora dela, cujos membros, por ocasi\u00e3o de epidemias, calamidades ou conflitos armados, enfrentam fadigas e perigos para cuidar dos feridos e doentes e para sepultar os mortos. Ao lado deles, quero mencionar as pessoas e as associa\u00e7\u00f5es que socorrem os emigrantes que atravessam desertos e sulcam mares \u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Estas ac\u00e7\u00f5es s\u00e3o obras de miseric\u00f3rdia corporal e espiritual, sobre as quais seremos julgados no fim da nossa vida.<\/p>\n<p>Penso tamb\u00e9m nos jornalistas e fot\u00f3grafos, que informam a opini\u00e3o p\u00fablica sobre as situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis que interpelam as consci\u00eancias, e naqueles que se comprometem na defesa dos direitos humanos, em particular os direitos das minorias \u00e9tnicas e religiosas, dos povos ind\u00edgenas, das mulheres e das crian\u00e7as, e de quantos vivem em condi\u00e7\u00f5es de maior vulnerabilidade. Entre eles, contam-se tamb\u00e9m muitos sacerdotes e mission\u00e1rios que, como bons pastores, permanecem junto dos seus fi\u00e9is e apoiam-nos sem olhar a perigos e adversidades, em particular durante os conflitos armados.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, quantas fam\u00edlias, no meio de in\u00fameras dificuldades laborais e sociais, se esfor\u00e7am concretamente, \u00e0 custa de muitos sacrif\u00edcios, por educar os seus filhos \u00abcontracorrente\u00bb nos valores da solidariedade, da compaix\u00e3o e da fraternidade! Quantas fam\u00edlias abrem os seus cora\u00e7\u00f5es e as suas casas a quem est\u00e1 necessitado, como os refugiados e os emigrantes! Quero agradecer de modo particular a todas as pessoas, fam\u00edlias, par\u00f3quias, comunidades religiosas, mosteiros e santu\u00e1rios que responderam prontamente ao meu apelo a acolher uma fam\u00edlia de refugiados.[28]<\/p>\n<p> Quero, enfim, mencionar os jovens que se unem para realizar projectos de solidariedade, e todos aqueles que abrem as suas m\u00e3os para ajudar o pr\u00f3ximo necessitado nas suas cidades, no seu pa\u00eds ou noutras regi\u00f5es do mundo. Quero agradecer e encorajar todos aqueles que est\u00e3o empenhados em ac\u00e7\u00f5es deste g\u00e9nero, mesmo sem gozar de publicidade: a sua fome e sede de justi\u00e7a ser\u00e3o saciadas, a sua miseric\u00f3rdia far-lhes-\u00e1 encontrar miseric\u00f3rdia e, como obreiros da paz, ser\u00e3o chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 6-9).<\/p>\n<p>A paz, sob o signo do Jubileu da Miseric\u00f3rdia<\/p>\n<p>8.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No esp\u00edrito do Jubileu da Miseric\u00f3rdia, cada um \u00e9 chamado a reconhecer como se manifesta a indiferen\u00e7a na sua vida e a adoptar um compromisso concreto que contribua para melhorar a realidade onde vive, a come\u00e7ar pela pr\u00f3pria fam\u00edlia, a vizinhan\u00e7a ou o ambiente de trabalho.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os Estados s\u00e3o chamados a cumprir gestos concretos, actos corajosos a bem das pessoas mais fr\u00e1geis da sociedade, como os reclusos, os migrantes, os desempregados e os doentes.<\/p>\n<p> Relativamente aos reclusos, urge em muitos casos adoptar medidas concretas para melhorar as suas condi\u00e7\u00f5es de vida nos estabelecimentos prisionais, prestando especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0queles que est\u00e3o privados da liberdade \u00e0 espera de julgamento,[29] tendo em mente a finalidade reabilitativa da san\u00e7\u00e3o penal e avaliando a possibilidade de inserir nas legisla\u00e7\u00f5es nacionais penas alternativas \u00e0 deten\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. Neste contexto, desejo renovar \u00e0s autoridades estatais o apelo a abolir a pena de morte, onde ainda estiver em vigor, e a considerar a possibilidade duma amnistia.<\/p>\n<p>Quanto aos migrantes, quero dirigir um convite a repensar as legisla\u00e7\u00f5es sobre as migra\u00e7\u00f5es, de modo que sejam animadas pela vontade de dar hospitalidade, no respeito pelos rec\u00edprocos deveres e responsabilidades, e possam facilitar a integra\u00e7\u00e3o dos migrantes. Nesta perspectiva, dever-se-ia prestar especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es para conceder a resid\u00eancia aos migrantes, lembrando-se de que a clandestinidade traz consigo o risco de os arrastar para a criminalidade.<\/p>\n<p> Desejo ainda, neste Ano Jubilar, formular um premente apelo aos l\u00edderes dos Estados para que realizem gestos concretos a favor dos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s que sofrem pela falta de trabalho, terra e tecto. Penso na cria\u00e7\u00e3o de empregos dignos para contrastar a chaga social do desemprego, que lesa um grande n\u00famero de fam\u00edlias e de jovens e tem consequ\u00eancias grav\u00edssimas no bom andamento da sociedade inteira. A falta de trabalho afecta, fortemente, o sentido de dignidade e de esperan\u00e7a, e s\u00f3 parcialmente \u00e9 que pode ser compensada pelos subs\u00eddios, embora necess\u00e1rios, para os desempregados e suas fam\u00edlias. Especial aten\u00e7\u00e3o deveria ser dedicada \u00e0s mulheres \u2013 ainda discriminadas, infelizmente, no campo laboral \u2013 e a algumas categorias de trabalhadores, cujas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o prec\u00e1rias ou perigosas e cujos sal\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o adequados \u00e0 import\u00e2ncia da sua miss\u00e3o social.<\/p>\n<p>Finalmente, quero convidar \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de ac\u00e7\u00f5es eficazes para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos doentes, garantindo a todos o acesso aos cuidados sanit\u00e1rios e aos medicamentos indispens\u00e1veis para a vida, incluindo a possibilidade de tratamentos domicili\u00e1rios.<\/p>\n<p> E, estendendo o olhar para al\u00e9m das pr\u00f3prias fronteiras, os l\u00edderes dos Estados s\u00e3o chamados tamb\u00e9m a renovar as suas rela\u00e7\u00f5es com os outros povos, permitindo a todos uma efectiva participa\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o na vida da comunidade internacional, para que se realize a fraternidade tamb\u00e9m dentro da fam\u00edlia das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesta perspectiva, desejo dirigir um tr\u00edplice apelo: apelo a abster-se de arrastar os outros povos para conflitos ou guerras que destroem n\u00e3o s\u00f3 as suas riquezas materiais, culturais e sociais, mas tamb\u00e9m \u2013 e por longo tempo \u2013 a sua integridade moral e espiritual; apelo ao cancelamento ou gest\u00e3o sustent\u00e1vel da d\u00edvida internacional dos Estados mais pobres; apelo \u00e0 adop\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de coopera\u00e7\u00e3o que, em vez de submeter \u00e0 ditadura dalgumas ideologias, sejam respeitadoras dos valores das popula\u00e7\u00f5es locais e, de maneira nenhuma, lesem o direito fundamental e inalien\u00e1vel dos nascituros \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Confio estas reflex\u00f5es, juntamente com os melhores votos para o novo ano, \u00e0 intercess\u00e3o de Maria Sant\u00edssima, M\u00e3e sol\u00edcita pelas necessidades da humanidade, para que nos obtenha de seu Filho Jesus, Pr\u00edncipe da Paz, a satisfa\u00e7\u00e3o das nossas s\u00faplicas e a b\u00ean\u00e7\u00e3o do nosso compromisso di\u00e1rio por um mundo fraterno e solid\u00e1rio.<\/p>\n<p>Vaticano, no dia da Solenidade da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o da Virgem Santa Maria e da Abertura do Jubileu Extraordin\u00e1rio da Miseric\u00f3rdia, 8 de Dezembro de 2015.<\/p>\n<p>[Franciscus]<\/p>\n<p>[1] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 1.<\/p>\n<p>[2] Cf. ibid., 3.<\/p>\n<p>[3] Bula de proclama\u00e7\u00e3o do Jubileu Extraordin\u00e1rio da Miseric\u00f3rdia Misericordiae Vultus, 14-15.<\/p>\n<p>[4] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 43.<\/p>\n<p>[5] Cf. ibid., 16.<\/p>\n<p>[6] Carta enc. Populorum progressio, 42.<\/p>\n<p>[7] \u00abA sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas n\u00e3o nos faz irm\u00e3os. A raz\u00e3o, por si s\u00f3, \u00e9 capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma conviv\u00eancia c\u00edvica entre eles, mas n\u00e3o consegue fundar a fraternidade\u00bb (Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 19).<\/p>\n<p>[8] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 60.<\/p>\n<p>[9] Cf. ibid., 54.<\/p>\n<p>[10] Mensagem para a Quaresma de 2015.<\/p>\n<p>[11] Cf. Carta enc. Laudato si\u2019, 92.<\/p>\n<p>[12] Cf. ibid., 51.<\/p>\n<p>[13] Discurso por ocasi\u00e3o dos votos de Bom Ano Novo ao Corpo Diplom\u00e1tico acreditado junto da Santa S\u00e9, 7 de Janeiro de 2013.<\/p>\n<p>[14] Ibidem.<\/p>\n<p>[15] Cf. Bento XVI, Discurso durante o Dia de reflex\u00e3o, di\u00e1logo e ora\u00e7\u00e3o pela paz e a justi\u00e7a no mundo, Assis, 27 de Outubro de 2011.<\/p>\n<p>[16] Cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 217-237.<\/p>\n<p>[17] \u00abEnquanto n\u00e3o se eliminar a exclus\u00e3o e a desigualdade dentro da sociedade e entre os v\u00e1rios povos ser\u00e1 imposs\u00edvel desarreigar a viol\u00eancia. Acusam-se da viol\u00eancia os pobres e as popula\u00e7\u00f5es mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as v\u00e1rias formas de agress\u00e3o e de guerra encontrar\u00e3o um terreno f\u00e9rtil que, mais cedo ou mais tarde, h\u00e1-de provocar a explos\u00e3o. Quando a sociedade \u2013 local, nacional ou mundial \u2013 abandona na periferia uma parte de si mesma, n\u00e3o h\u00e1 programas pol\u00edticos, nem for\u00e7as da ordem ou servi\u00e7os secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto n\u00e3o acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reac\u00e7\u00e3o violenta de quantos s\u00e3o exclu\u00eddos do sistema, mas porque o sistema social e econ\u00f3mico \u00e9 injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim tamb\u00e9m o mal consentido, que \u00e9 a injusti\u00e7a, tende a expandir a sua for\u00e7a nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema pol\u00edtico e social, por mais s\u00f3lido que pare\u00e7a\u00bb (Exort. ap. Evangelii gaudium, 59).<\/p>\n<p>[18] Cf. Carta enc. Laudato si\u2019, 31; 48.<\/p>\n<p>[19] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2015, 2.<\/p>\n<p>[20] Bula de proclama\u00e7\u00e3o do Jubileu Extraordin\u00e1rio da Miseric\u00f3rdia Misericordiae Vultus, 12.<\/p>\n<p>[21] Cf. ibid., 13.<\/p>\n<p>[22] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollecitudo rei socialis, 38.<\/p>\n<p>[23] Ibidem.<\/p>\n<p>[24] Cf. ibidem.<\/p>\n<p>[25] Cf. Catequese, na Audi\u00eancia Geral de 7 de Janeiro de 2015.<\/p>\n<p>[26] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2012, 2.<\/p>\n<p>[27] Ibidem.<\/p>\n<p>[28] Cf. Angelus de 6 de Setembro de 2015.<\/p>\n<p>[29] Cf. Discurso \u00e0 delega\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Direito Penal, 23 de Outubro de 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: r\u00e1dio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi apresentada na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira (15\/12), a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz, que tem o tema &#8220;Vence a indiferen\u00e7a e conquista a paz&#8221;. O Dia \u00e9 celebrado em 1o de janeiro. Abaixo, publicamos o texto integral da mensagem, em portugu\u00eas, como divulgado pelo Vaticano. 1.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Deus n\u00e3o \u00e9 indiferente; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-12668","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12668","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12668"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12668\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27598,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12668\/revisions\/27598"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}