{"id":12413,"date":"2015-11-25T12:05:36","date_gmt":"2015-11-25T14:05:36","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2015\/11\/25\/porta-aberta-laudato-si-de-101-a-108\/"},"modified":"2017-06-02T13:57:53","modified_gmt":"2017-06-02T16:57:53","slug":"porta-aberta-laudato-si-de-101-a-108","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/porta-aberta-laudato-si-de-101-a-108\/","title":{"rendered":"Porta aberta: Laudato si &#8211; De 101 a 108"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/reuters1053837_articolo.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Cidade do Vaticano (RV) &#8211; CAP\u00cdTULO III<\/p>\n<p>A RAIZ HUMANA DA CRISE ECOL\u00d3GICA<\/p>\n<p>101. Para nada serviria descrever os sintomas, se n\u00e3o reconhec\u00eassemos a raiz humana da crise ecol\u00f3gica. H\u00e1 um modo desordenado de conceber a vida e a ac\u00e7\u00e3o do ser humano, que contradiz a realidade at\u00e9 ao ponto de a arruinar. N\u00e3o poderemos deter-nos a pensar nisto mesmo? Proponho, pois, que nos concentremos no paradigma tecnocr\u00e1tico dominante e no lugar que ocupa nele o ser humano e a sua ac\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p>1. A tecnologia: criatividade e poder<\/p>\n<p>102. A humanidade entrou numa nova era, em que o poder da tecnologia nos p\u00f5e diante duma encruzilhada. Somos herdeiros de dois s\u00e9culos de ondas enormes de mudan\u00e7as: a m\u00e1quina a vapor, a ferrovia, o tel\u00e9grafo, a electricidade, o autom\u00f3vel, o avi\u00e3o, as ind\u00fastrias qu\u00edmicas, a medicina moderna, a inform\u00e1tica e, mais recentemente, a revolu\u00e7\u00e3o digital, a rob\u00f3tica, as biotecnologias e as nanotecnologias. \u00c9 justo que nos alegremos com estes progressos e nos entusiasmemos \u00e0 vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes, porque \u00aba ci\u00eancia e a tecnologia s\u00e3o um produto estupendo da criatividade humana que Deus nos deu\u00bb.[81] A transforma\u00e7\u00e3o da natureza para fins \u00fateis \u00e9 uma caracter\u00edstica do g\u00e9nero humano, desde os seus prim\u00f3rdios; e assim a t\u00e9cnica \u00abexprime a tens\u00e3o do \u00e2nimo humano para uma gradual supera\u00e7\u00e3o de certos condicionamentos materiais\u00bb.[82] A tecnologia deu rem\u00e9dio a in\u00fameros males, que afligiam e limitavam o ser humano. N\u00e3o podemos deixar de apreciar e agradecer os progressos alcan\u00e7ados especialmente na medicina, engenharia e comunica\u00e7\u00f5es. Como n\u00e3o havemos de reconhecer todos os esfor\u00e7os de tantos cientistas e t\u00e9cnicos que elaboraram alternativas para um desenvolvimento sustent\u00e1vel?<\/p>\n<p>103. A tecnoci\u00eancia, bem orientada, pode produzir coisas realmente valiosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano, desde os objectos de uso dom\u00e9stico at\u00e9 aos grandes meios de transporte, pontes, edif\u00edcios, espa\u00e7os p\u00fablicos. \u00c9 capaz tamb\u00e9m de produzir coisas belas e fazer o ser humano, imerso no mundo material, dar o \u00absalto\u00bb para o \u00e2mbito da beleza. Poder-se-\u00e1 negar a beleza de um avi\u00e3o ou de alguns arranha-c\u00e9us? H\u00e1 obras pict\u00f3ricas e musicais de valor, obtidas com o recurso aos novos instrumentos t\u00e9cnicos. Assim, no desejo de beleza do art\u00edfice e em quem contempla esta beleza d\u00e1-se o salto para uma certa plenitude propriamente humana.<\/p>\n<p>104. N\u00e3o podemos, por\u00e9m, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a inform\u00e1tica, o conhecimento do nosso pr\u00f3prio DNA e outras potencialidades que adquirimos, nos d\u00e3o um poder tremendo. Ou melhor: d\u00e3o, \u00e0queles que det\u00eam o conhecimento e sobretudo o poder econ\u00f3mico para o desfrutar, um dom\u00ednio impressionante sobre o conjunto do g\u00e9nero humano e do mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizar\u00e1 bem, sobretudo se se considera a maneira como o est\u00e1 a fazer. Basta lembrar as bombas at\u00f3micas lan\u00e7adas em pleno s\u00e9culo XX, bem como a grande exibi\u00e7\u00e3o de tecnologia ostentada pelo nazismo, o comunismo e outros regimes totalit\u00e1rios e que serviu para o exterm\u00ednio de milh\u00f5es de pessoas, sem esquecer que hoje a guerra disp\u00f5e de instrumentos cada vez mais mort\u00edferos. Nas m\u00e3os de quem est\u00e1 e pode chegar a estar tanto poder? \u00c9 tremendamente arriscado que resida numa pequena parte da humanidade.<\/p>\n<p>105. Tende-se a crer que \u00abtoda a aquisi\u00e7\u00e3o de poder seja simplesmente progresso, aumento de seguran\u00e7a, de utilidade, de bem-estar, de for\u00e7a vital, de plenitude de valores\u00bb[83], como se a realidade, o bem e a verdade desabrochassem espontaneamente do pr\u00f3prio poder da tecnologia e da economia. A verdade \u00e9 que \u00abo homem moderno n\u00e3o foi educado para o recto uso do poder\u00bb,[84] porque o imenso crescimento tecnol\u00f3gico n\u00e3o foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto \u00e0 responsabilidade, aos valores, \u00e0 consci\u00eancia. Cada \u00e9poca tende a desenvolver uma reduzida autoconsci\u00eancia dos pr\u00f3prios limites. Por isso, \u00e9 poss\u00edvel que hoje a humanidade n\u00e3o se d\u00ea conta da seriedade dos desafios que se lhe apresentam, e \u00abcresce continuamente a possibilidade de o homem fazer mau uso do seu poder\u00bb quando \u00abn\u00e3o existem normas de liberdade, mas apenas pretensas necessidades de utilidade e seguran\u00e7a\u00bb.[85] O ser humano n\u00e3o \u00e9 plenamente aut\u00f3nomo. A sua liberdade adoece, quando se entrega \u00e0s for\u00e7as cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do ego\u00edsmo, da viol\u00eancia brutal. Neste sentido, ele est\u00e1 nu e exposto frente ao seu pr\u00f3prio poder que continua a crescer, sem ter os instrumentos para o controlar. Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma \u00e9tica s\u00f3lida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum l\u00facido dom\u00ednio de si.<\/p>\n<p>2. A globaliza\u00e7\u00e3o do paradigma tecnocr\u00e1tico<\/p>\n<p>106. Mas o problema fundamental \u00e9 outro e ainda mais profundo: o modo como realmente a humanidade assumiu a tecnologia e o seu desenvolvimento juntamente com um paradigma homog\u00e9neo e unidimensional. Neste paradigma, sobressai uma concep\u00e7\u00e3o do sujeito que progressivamente, no processo l\u00f3gico-racional, compreende e assim se apropria do objecto que se encontra fora. Um tal sujeito desenvolve-se ao estabelecer o m\u00e9todo cient\u00edfico com a sua experimenta\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 \u00e9 explicitamente uma t\u00e9cnica de posse, dom\u00ednio e transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se o sujeito tivesse \u00e0 sua frente a realidade informe totalmente dispon\u00edvel para a manipula\u00e7\u00e3o. Sempre se verificou a interven\u00e7\u00e3o do ser humano sobre a natureza, mas durante muito tempo teve a caracter\u00edstica de acompanhar, secundar as possibilidades oferecidas pelas pr\u00f3prias coisas; tratava-se de receber o que a realidade natural por si permitia, como que estendendo a m\u00e3o. Mas, agora, o que interessa \u00e9 extrair o m\u00e1ximo poss\u00edvel das coisas por imposi\u00e7\u00e3o da m\u00e3o humana, que tende a ignorar ou esquecer a realidade pr\u00f3pria do que tem \u00e0 sua frente. Por isso, o ser humano e as coisas deixaram de se dar amigavelmente a m\u00e3o, tornando-se contendentes. Daqui passa-se facilmente \u00e0 ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os te\u00f3ricos da finan\u00e7a e da tecnologia. Isto sup\u00f5e a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a \u00abesprem\u00ea-lo\u00bb at\u00e9 ao limite e para al\u00e9m do mesmo. Trata-se do falso pressuposto de que \u00abexiste uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regenera\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel de imediato e que os efeitos negativos das manipula\u00e7\u00f5es da ordem natural podem ser facilmente absorvidos\u00bb.[86]<\/p>\n<p>107. Assim podemos afirmar que, na origem de muitas dificuldades do mundo actual, est\u00e1 principalmente a tend\u00eancia, nem sempre consciente, de elaborar a metodologia e os objectivos da tecnoci\u00eancia segundo um paradigma de compreens\u00e3o que condiciona a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade. Os efeitos da aplica\u00e7\u00e3o deste modelo a toda a realidade, humana e social, constatam-se na degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente, mas isto \u00e9 apenas um sinal do reducionismo que afecta a vida humana e a sociedade em todas as suas dimens\u00f5es. \u00c9 preciso reconhecer que os produtos da t\u00e9cnica n\u00e3o s\u00e3o neutros, porque criam uma trama que acaba por condicionar os estilos de vida e orientam as possibilidades sociais na linha dos interesses de determinados grupos de poder. Certas op\u00e7\u00f5es, que parecem puramente instrumentais, na realidade s\u00e3o op\u00e7\u00f5es sobre o tipo de vida social que se pretende desenvolver.<\/p>\n<p>108. N\u00e3o se consegue pensar que seja poss\u00edvel sustentar outro paradigma cultural e servir-se da t\u00e9cnica como mero instrumento, porque hoje o paradigma tecnocr\u00e1tico tornou-se t\u00e3o dominante que \u00e9 muito dif\u00edcil prescindir dos seus recursos, e mais dif\u00edcil ainda \u00e9 utilizar os seus recursos sem ser dominados pela sua l\u00f3gica. Tornou-se anticultural a escolha dum estilo de vida, cujos objectivos possam ser, pelo menos em parte, independentes da t\u00e9cnica, dos seus custos e do seu poder globalizante e massificador. Com efeito, a t\u00e9cnica tem tend\u00eancia a fazer com que nada fique fora da sua l\u00f3gica f\u00e9rrea, e \u00abo homem que \u00e9 o seu protagonista sabe que, em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o se trata de utilidade nem de bem-estar, mas de dom\u00ednio; dom\u00ednio no sentido extremo da palavra\u00bb.[87] Por isso, \u00abprocura controlar os elementos da natureza e, conjuntamente, os da exist\u00eancia humana\u00bb.[88] Reduzem-se assim a capacidade de decis\u00e3o, a liberdade mais genu\u00edna e o espa\u00e7o para a criatividade alternativa dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: R\u00e1dio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidade do Vaticano (RV) &#8211; CAP\u00cdTULO III A RAIZ HUMANA DA CRISE ECOL\u00d3GICA 101. Para nada serviria descrever os sintomas, se n\u00e3o reconhec\u00eassemos a raiz humana da crise ecol\u00f3gica. 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