{"id":12152,"date":"2015-10-29T12:08:41","date_gmt":"2015-10-29T14:08:41","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2015\/10\/29\/a-misericordia-e-o-coracao-da-igreja\/"},"modified":"2017-05-09T14:21:31","modified_gmt":"2017-05-09T17:21:31","slug":"a-misericordia-e-o-coracao-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-misericordia-e-o-coracao-da-igreja\/","title":{"rendered":"A miseric\u00f3rdia \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da Igreja"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O tema da miseric\u00f3rdia faz parte da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Assim lemos em Lc 15. Ali\u00e1s, faz parte da vida humana em todos os momentos da hist\u00f3ria. A revela\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 o coloca no cento do relacionamento entre as pessoas. Em Jesus Cristo ficou muito clara a experi\u00eancia da miseric\u00f3rdia de Deus para com o povo pecador e distante do caminho.<br \/> Para o Papa Francisco, desde a sua primeira apari\u00e7\u00e3o na janela do Pal\u00e1cio Apost\u00f3lico at\u00e9 hoje, em suas interven\u00e7\u00f5es e sinais, o tema da miseric\u00f3rdia tem norteado sua prega\u00e7\u00e3o e seu comportamento. E, vendo que o mundo necessita caminhar nessa trilha da miseric\u00f3rdia, proclamou o Ano do Jubileu da Miseric\u00f3rdia. Eis um testemunho que deve nos nortear sempre e que, especialmente neste Ano da Miseric\u00f3rdia, deve estar em nossas reflex\u00f5es e na necessidade de fazer aparecer a miseric\u00f3rdia ao povo de nosso tempo.<br \/>A express\u00e3o miseric\u00f3rdia tem origem latina; \u00e9 formada pela jun\u00e7\u00e3o de miserere (ter compaix\u00e3o), e cordis (cora\u00e7\u00e3o). &#8220;Ter compaix\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o&#8221; ou \u201cter um cora\u00e7\u00e3o compassivo que desce \u00e0 mis\u00e9ria do outro\u201d significa ter capacidade de sentir aquilo que a outra pessoa sente, aproximar seus sentimentos dos sentimentos de algu\u00e9m, ser solid\u00e1rio com as pessoas. <br \/> Na tradi\u00e7\u00e3o tanto judaica quanto crist\u00e3 proclama-se que a miseric\u00f3rdia de Deus \u00e9 infinita, que Deus condena o pecado, o mal cometido, mas n\u00e3o quer nem a morte nem a condena\u00e7\u00e3o do pecador. Recordemos de Jesus de Nazar\u00e9 que, diante de uma mulher surpreendida em flagrante adult\u00e9rio, disse: &#8220;Mulher, ningu\u00e9m te condenou? Nem eu te condeno! Vai e n\u00e3o peques mais!&#8221; (Jo 8, 10-11).<br \/> \u00c9 em fidelidade a essa &#8220;boa not\u00edcia&#8221; que o Papa S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, na enc\u00edclica Pacem in Terris, 52 anos atr\u00e1s, afirmava que jamais se deve &#8220;confundir o erro com a pessoa que erra&#8221; e que &#8220;pessoa que erra n\u00e3o deixa de ser uma pessoa, nem perde nunca a dignidade do ser humano&#8221; e, portanto, deve ser tratada com miseric\u00f3rdia e compaix\u00e3o.<br \/> Desde que assumiu o minist\u00e9rio petrino, o Santo Padre o Papa Francisco proclama a boa not\u00edcia crist\u00e3 por excel\u00eancia, o Evangelho, que \u00e9 muito simples: Deus \u00e9 amor universal infinito, o seu amor n\u00e3o precisa ser merecido, a sua miseric\u00f3rdia quer chegar a todas as pessoas, todas pecadoras, isto \u00e9, respons\u00e1veis por um mau viver e agir.<br \/> Na verdade, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma mudan\u00e7a substancial no magist\u00e9rio papal: S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II exaltou a miseric\u00f3rdia atrav\u00e9s de uma enc\u00edclica (\u201cDives in miseric\u00f3rdia\u201d) e da institui\u00e7\u00e3o do &#8220;domingo da miseric\u00f3rdia&#8221; no segundo domingo da P\u00e1scoa (foi nesse dia que eu iniciei meu minist\u00e9rio episcopal aqui na cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro). O caminho que vejo \u00e9 construir a unidade pela miseric\u00f3rdia e pela compaix\u00e3o. O Papa Bento XVI colocou no centro da sua prega\u00e7\u00e3o esse amor-caridade (\u201cDeus caritas est\u201d), que \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o \u00faltima do Deus narrado por Jesus Cristo.<br \/> Como Jesus disse \u00e0 ad\u00faltera &#8220;nem eu te condeno&#8221;, o Papa Francisco n\u00e3o pode dizer outra coisa diante de um homem, de uma mulher que s\u00e3o pecadores assim como os outros. Cada um de n\u00f3s, sendo honesto, pode no m\u00e1ximo dizer que cometeu pecados diferentes, mas n\u00e3o que \u00e9 sem pecado. Ele disse o que deve dizer um crist\u00e3o que sabe deixar a Deus o julgamento. A Igreja e, portanto, os seus ministros podem e devem discernir o que \u00e9 mal, denunci\u00e1-lo, alertar contra o mal, mas n\u00e3o julgam aqueles que cometem o mal. O Estado emite um julgamento sobre o que \u00e9 delituoso segundo a sua lei e, tamb\u00e9m, imp\u00f5e uma pena ao culpado, mas os crist\u00e3os n\u00e3o o fazem: eles remetem o ju\u00edzo a Deus. Isso n\u00e3o \u00e9 &#8220;bonismo&#8221;, n\u00e3o \u00e9 dilui\u00e7\u00e3o da exigente \u00e9tica crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 buscar modas ou posi\u00e7\u00f5es mundanas: \u00e9 fazer resplandecer a verdade do Evangelho sem que ela cegue aqueles que a querem buscar.<br \/> Nesse sentido, o Papa tamb\u00e9m me parece remeter a uma leitura necess\u00e1ria e urgente hoje na Igreja: no furor da &#8220;toler\u00e2ncia zero&#8221;, \u00e0s vezes n\u00e3o se sabe mais distinguir entre o que \u00e9 mau segundo a Igreja, os pecados, e o que \u00e9 mau segundo a lei do Estado, os delitos. Quando h\u00e1 um crime, para o crist\u00e3o, assim como para qualquer outra pessoa sujeita \u00e0s leis do Estado, a justi\u00e7a deve intervir e exercer o seu poder de condena\u00e7\u00e3o. Lembremos que para os pecados, no espa\u00e7o eclesial, est\u00e1 prevista a confiss\u00e3o, o reconhecimento da culpa, o pedido de perd\u00e3o a Deus que sempre o concede, ou mesmo a via penitencial para uma mudan\u00e7a radical de vida que todos, absolutamente todos, t\u00eam direito de recome\u00e7o e de gra\u00e7a.<br \/> Para qualquer pessoa que presida uma Igreja ou uma comunidade n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil caminhar sobre o fio da navalha: reiterar com for\u00e7a o que \u00e9 bom e denunciar o que \u00e9 mau, mas continuar se exercitando na miseric\u00f3rdia com aqueles que, tentados, sucumbem e cometem o mal.\u00a0 Qualquer pessoa que governe na Igreja deve ser forte na f\u00e9 e na doutrina, mas com o cora\u00e7\u00e3o misericordioso moldado por Deus: o Deus que deixa 99 ovelhas no aprisco e vai em busca daquela que se perdeu; o Deus que espera o filho que se afastou e faz mais festa para ele do que para o outro que nunca tinha tido a coragem de ir embora; o Deus que, sobre a Cruz, em Jesus, perdoa aqueles que O crucificaram e O desprezaram. Essa mensagem \u00e9 escandalosa desde sempre para muitas pessoas que s\u00f3 enxergam a lei, \u00e9 loucura para os intelectuais que confiam no seu racioc\u00ednio jur\u00eddico, mas isso \u00e9 o cristianismo.<br \/> O que, portanto, \u00e9 realmente grave na vida de um crist\u00e3o? Temos muitas situa\u00e7\u00f5es e os mandamentos explicitam com clareza. \u00c9 tamb\u00e9m grave julgar os outros com intransig\u00eancia e rancor, \u00e9 grave e hip\u00f3crita condenar com for\u00e7a e severidade os outros porque cometem atos que, muitas vezes, justamente aqueles que o condenam tamb\u00e9m cometem, por sua vez. \u00c9, ainda, mais grave se comportamentos pecaminosos se tornam meios de chantagem, de poder, de cumplicidade, at\u00e9 conduzir batalhas comuns contra &#8220;outros&#8221; percebidos como inimigos ou pura e simplesmente porque s\u00e3o mais inteligentes ou capacitados do que os seus algozes.<br \/> Quem n\u00e3o julga n\u00e3o ser\u00e1 julgado, quem tem miseric\u00f3rdia obter\u00e1 miseric\u00f3rdia: essas s\u00e3o palavras de Jesus. \u00c9 nessa compreens\u00e3o do Evangelho que o Papa Francisco disse ao episcopado brasileiro: &#8220;\u00c9 preciso uma Igreja capaz de redescobrir as entranhas maternas da miseric\u00f3rdia. Sem a miseric\u00f3rdia, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel inserir-se em um mundo de &#8216;feridos&#8217; que precisam de compreens\u00e3o, de perd\u00e3o, de amor&#8221;.<br \/> Os trabalhos do S\u00ednodo dos Bispos sobre a Fam\u00edlia encerraram-se no \u00faltimo Domingo, o XXX do Tempo Comum, em que o Evangelho fala do cego Bartimeu. Um importante momento deste final de S\u00ednodo foi a interven\u00e7\u00e3o do Papa Francisco com uma mensagem em que real\u00e7ou a import\u00e2ncia de defender o homem e n\u00e3o as ideias, defender o esp\u00edrito e n\u00e3o a letra da doutrina.<br \/> Em particular, o Papa Francisco considerou que a experi\u00eancia do S\u00ednodo fez compreender melhor que defender a doutrina \u00e9 defender o seu esp\u00edrito e o homem em vez de ideias: \u201cA experi\u00eancia do S\u00ednodo fez-nos compreender melhor tamb\u00e9m que os verdadeiros defensores da doutrina n\u00e3o s\u00e3o os que defendem a letra, mas o esp\u00edrito; n\u00e3o as ideias, mas o homem; n\u00e3o as f\u00f3rmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perd\u00e3o.\u201d O Papa Francisco foi categ\u00f3rico ao dizer que a Igreja n\u00e3o quer impor condena\u00e7\u00f5es, mas ser o canal da gra\u00e7a misericordiosa e reparadora.<br \/> O Santo Padre recordou o Beato Paulo VI, S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II e Papa Bento XVI e no final do seu intenso discurso afirmou que \u201cpara a Igreja, encerrar o S\u00ednodo significa voltar realmente a \u00abcaminhar juntos\u00bb para levar a toda a parte do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situa\u00e7\u00e3o a luz do Evangelho, o abra\u00e7o da Igreja e o apoio da miseric\u00f3rdia Deus\u201d!<br \/> O Evangelho desse dia, que apresentou o epis\u00f3dio do cego Bartimeu, foi precedido na primeira leitura pelo profeta Jeremias que, em pleno desastre nacional, enquanto o povo \u00e9 deportado pelos inimigos, anuncia que \u201co Senhor salvou o seu povo\u201d \u201cporque Ele \u00e9 Pai (cf. 31, 9); e, como Pai, cuida dos seus filhos\u201d \u2013 afirmou o Papa.<br \/> Na sua homilia, o Santo Padre assim se referiu: \u201co Evangelho de hoje se liga diretamente \u00e0 primeira Leitura: como o povo de Israel foi libertado gra\u00e7as \u00e0 paternidade de Deus, assim Bartimeu foi libertado gra\u00e7as \u00e0 compaix\u00e3o de Jesus.\u201d Jesus deixa-se comover e responde ao grito do Bartimeu: \u201cJesus acaba de sair de Jeric\u00f3. Mas Ele, apesar de ter apenas iniciado o caminho mais importante, o caminho para Jerusal\u00e9m, det\u00e9m-Se ainda para responder ao grito de Bartimeu. Deixa-Se comover pelo seu pedido, interessa-Se pela sua situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o Se contenta em dar-lhe uma esmola, mas quer encontr\u00e1-lo pessoalmente. N\u00e3o lhe d\u00e1 instru\u00e7\u00f5es nem respostas, mas faz uma pergunta: \u201cQue queres que te fa\u00e7a\u201d? (Mc 10, 51).<br \/> A palavra s\u00ednodo significa \u201ccaminhar juntos\u201d \u2013 recordou o Papa \u2013 e neste S\u00ednodo o Santo Padre lembrou o caminho percorrido com as fam\u00edlias do \u201cPovo santo de Deus disperso por todo o mundo\u201d. Por esta raz\u00e3o, o Papa Francisco recordou o profeta Jeremias em uma das leituras do dia, onde verificamos que \u201co primeiro a querer caminhar conosco, a querer fazer s\u00ednodo conosco \u00e9 o nosso Pai\u201d. E o sonho de Deus \u00e9 o de formar um povo onde cabem todos, \u201centre eles est\u00e3o o cego e o coxo\u201d!<br \/> O Santo Padre, a este ponto da sua mensagem antes da recita\u00e7\u00e3o do \u00c2ngelus, declarou que a profecia do povo em caminho f\u00ea-lo confrontar-se com a realidade dos refugiados na Europa: \u201cTamb\u00e9m estas fam\u00edlias mais sofredoras, desenraizadas das suas terras, estiveram presentes conosco no S\u00ednodo, na nossa ora\u00e7\u00e3o e nos nossos trabalhos, atrav\u00e9s da voz de alguns dos seus Pastores presentes na Assembleia. Estas pessoas em procura da dignidade, estas fam\u00edlias em procura de paz ficam ainda conosco, a Igreja n\u00e3o as abandona, porque fazem parte do povo que Deus quer libertar da escravid\u00e3o e guiar para a liberdade\u201d.<br \/> Agora vamos estudar o relat\u00f3rio final do S\u00ednodo, com as suas muitas indica\u00e7\u00f5es para a vida da fam\u00edlia, para o incremento da Pastoral Familiar. Vamos, com esperan\u00e7a e abertura de cora\u00e7\u00e3o, aguardar a Exorta\u00e7\u00e3o P\u00f3s-Sinodal. E, como sempre pede o Papa Francisco, vamos rezar pelas fam\u00edlias, e pelo nosso pai na f\u00e9, que nos guia na caridade \u2013 o pr\u00f3prio Papa Francisco \u2013, para que o Esp\u00edrito Santo de Deus continue guiando a sua importante miss\u00e3o. E, para todos n\u00f3s, ministros ordenados e todos os homens e mulheres de boa vontade, aqueles que particularmente est\u00e3o com os cora\u00e7\u00f5es feridos, meu abra\u00e7o generoso, minha solidariedade e a minha prega\u00e7\u00e3o vigorosa, n\u00e3o s\u00f3 em palavras, mas em atos concretos que quero reafirmar como fiz no in\u00edcio de meu minist\u00e9rio no Rio de Janeiro, e estou procurando colocar em pr\u00e1tica em todo o meu itiner\u00e1rio crist\u00e3o: a miseric\u00f3rdia \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da Igreja!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tema da miseric\u00f3rdia faz parte da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Assim lemos em Lc 15. Ali\u00e1s, faz parte da vida humana em todos os momentos da hist\u00f3ria. A revela\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 o coloca no cento do relacionamento entre as pessoas. 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