{"id":11884,"date":"2015-10-05T19:29:04","date_gmt":"2015-10-05T22:29:04","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2015\/10\/05\/justica-nos-trilhos-cristaos-contra-os-gigantes-do-ferro\/"},"modified":"2017-05-31T15:41:19","modified_gmt":"2017-05-31T18:41:19","slug":"justica-nos-trilhos-cristaos-contra-os-gigantes-do-ferro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/justica-nos-trilhos-cristaos-contra-os-gigantes-do-ferro\/","title":{"rendered":"Justi\u00e7a nos trilhos. Crist\u00e3os contra os gigantes do ferro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Jovem, esbelto, magro, sorridente, bom. Padre Dario Bossi \u00e9 um mission\u00e1rio comboniano que h\u00e1 12 anos mora e trabalha no Brasil, na \u00e1rea de minera\u00e7\u00e3o do estado do Maranh\u00e3o, a maior e mais rica do mundo, onde, no entanto, a explora\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia est\u00e3o amea\u00e7ando a vida das pessoas e pilhando os recursos naturais. Coerentemente com a miss\u00e3o evang\u00e9lica e com a Enc\u00edclica \u201cLaudato Si\u201d, o Pe. Dario, junto com os irm\u00e3os e outras comunidades crist\u00e3s no mundo, defende e apoia os \u00faltimos contra os gigantes do ferro. A humana fragilidade dos \u00faltimos contra a gan\u00e2ncia e a arrog\u00e2ncia das empresas de minera\u00e7\u00e3o. Na semana passada, o Papa Francisco encontrou-se com os delegados do Cap\u00edtulo Geral da Congrega\u00e7\u00e3o fundada por S\u00e3o Daniel Comboni. Entre estes estava tamb\u00e9m o Pe. Dario Bossi. ZENIT o entrevistou em Roma.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>ZENIT: Voc\u00eas acabaram de se encontrar com o Papa Francisco. O que foi que lhe disseram e o que ele lhes disse?<\/p>\n<p>Pe. Dario Bossi: A coisa mais bonita que o Papa Francisco disse foi: &#8220;Eu sempre, sempre, tive uma grande admira\u00e7\u00e3o por voc\u00eas, pelo trabalho que fazem, pelos riscos que correm&#8230; sente senti essa grande admira\u00e7\u00e3o. Obriga\u00e7\u00e3o\u201d. H\u00e1 tempo esper\u00e1vamos o encontro com Francisco, o preparamos durante o nosso Cap\u00edtulo Geral com uma peregrina\u00e7\u00e3o ao outro Francisco, o de Assis, e discutimos por um m\u00eas no Cap\u00edtulo sobre como traduzir na pr\u00e1tica a Evangelium Gaudium na nossa miss\u00e3o comboniana. Dissemos muitas coisas ao papa, cada um nos trinta segundos que teve a disposi\u00e7\u00e3o com ele! Acho que teve uma bela ideia da pluralidade da nossa fam\u00edlia comboniana: intercultural e imersa em desafios bem diferentes nos quatro cantos do mundo. Houve quem lhe falou do drama da guerra na \u00c1frica Central, Sul, Sud\u00e3o ou Eritreia; quem do di\u00e1logo com o Isl\u00e3 ou do compromisso mission\u00e1rio com os migrantes ou povos de descend\u00eancia Africana; quem enfatizou a harmonia do nosso trabalho com a enc\u00edclica Laudato Si, especialmente na Amaz\u00f4nia e com os povos ind\u00edgenas. Como disse Daniel Comboni, somos diferentes raios, mas que derivam do mesmo centro: o encontro com o Bom Pastor, que nos impulsiona para fora e nos faz sentir o gosto de ter o cheiro das ovelhas!<\/p>\n<p>ZENIT: Voc\u00ea est\u00e1 particularmente envolvido em uma miss\u00e3o em A\u00e7ail\u00e2ndia, \u00e0s portas da Amaz\u00f4nia Brasileira, bem na fronteira com a maior mina de ferro do mundo. A mina e as ferrovias s\u00e3o obras humanas que se usadas corretamente para o trabalho e a sociedade trazem desenvolvimento e progresso. Por\u00e9m, o que est\u00e1 acontecendo ali, destr\u00f3i o ambiente, faz as pessoas viverem mal e existem muitas v\u00edtimas. As vezes a gan\u00e2ncia de alguns \u00e9 t\u00e3o agressiva que resulta em viol\u00eancia e amea\u00e7as contra quem procura, como voc\u00ea, defender as pessoas e o ambiente. Pode falar-nos um pouco do que est\u00e1 acontecendo?<\/p>\n<p>Pe. Dario Bossi: Estamos na regi\u00e3o de Caraj\u00e1s, \u00e1rea de enormes jazidas de ferro que a empresa Vale (privatizada em 1997, tornando-se uma das maiores multinacionais de minera\u00e7\u00e3o) est\u00e1 explorando de forma fren\u00e9tica. Quando essas reservas foram descobertas, se falava que durariam cerca de 500 anos. Mas o ritmo de extra\u00e7\u00e3o tornou-se fren\u00e9tico, muito al\u00e9m das necessidades reais do min\u00e9rio no mundo. E a Vale est\u00e1 dobrando todo o sistema, para conseguir extrair mais de 230 milh\u00f5es de toneladas de ferro por ano. Vinte e quatro comboios ferrovi\u00e1rios por dia. \u00c9 claro, ent\u00e3o, que j\u00e1 a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o vai conhecer o fim de Caraj\u00e1s, um dos patrim\u00f4nios minerais mais preciosos do mundo. A enc\u00edclica Laudato Si, que demonstra conhecer bem estes processos, traz essa passagem que parece o retrato da nossa regi\u00e3o: &#8220;Geralmente, quando param as suas atividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento de algumas reservas naturais, desmatamento, empobrecimento da agricultura e da pecu\u00e1ria local, crateras, colinas devastadas, rios secos e alguma obra social que n\u00e3o consegue mais se sustentar\u201d (LS 51). Este modelo de minera\u00e7\u00e3o \u00e9 um emblema da loucura da economia de hoje. R\u00e9plica, em chave moderna, da pr\u00e1tica colonial da pilhagem das mat\u00e9rias primas, mas em um n\u00edvel exasperado de pilhagem sem limites. Ou\u00e7amos novamente a Laudato Si: \u201cDaqui passa-se facilmente \u00e0 ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os te\u00f3ricos da finan\u00e7a e da tecnologia. Isto sup\u00f5e a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a \u00abesprem\u00ea-lo\u00bb at\u00e9 ao limite e para al\u00e9m do mesmo. Trata-se do falso pressuposto de que \u00abexiste uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regenera\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel de imediato e que os efeitos negativos das manipula\u00e7\u00f5es da ordem natural podem ser facilmente absorvidos\u00bb. (LS 106). Nossa M\u00e3e Terra \u00e9 limitada e sua respira\u00e7\u00e3o est\u00e1 se tornando dif\u00edcil. As popula\u00e7\u00f5es locais o compreendem, o sentem na sua carne e procuram defender os territ\u00f3rios no qual vivem, preservando-os da agress\u00e3o deste modelo de pilhagem \u00e1vida e extrativista. Quem se op\u00f5e, por\u00e9m, corre s\u00e9rio perigo&#8230;<\/p>\n<p>ZENIT: Que tipo de perigo que voc\u00ea est\u00e1 correndo?<\/p>\n<p>Pe. Dario Bossi: No m\u00eas passado Raimundo dos Santos Rodrigues foi morto. Ele era um campon\u00eas, um pequeno propriet\u00e1rio de terra na reserva biol\u00f3gica de Gurupi e membro do sindicato dos trabalhores da terra. A reserva Gurupi, h\u00e1 tempo, \u00e9 objeto dos apetites de alguns grandes fazendeiros e dos saqueadores de madeira nativa (madeireiros). A esposa estava ao seu lado na hora do ataque, ficou ferida e agora tem que viver escondida, fugindo daqueles que a amea\u00e7am de morte. Mais de trinta fam\u00edlias da mesma comunidade fugiram, porque temem terminar da mesma forma. Abandonaram, de uma hora pra outra, casas, campos e animais. N\u00e3o sabemos como poder\u00e3o reconstruir uma vida. Muitas das nossas energias como mission\u00e1rios e defensores dos direitos humanos est\u00e3o sendo dedicadas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes locais&#8230; N\u00f3s mesmos temos que agir com muita cautela. N\u00e3o recebemos amea\u00e7as de morte, mas em 2013, foi descoberta uma rede de espionagem das nossas comunidades religiosas, entidades e movimentos sociais, da empresa Vale e do pr\u00f3prio Estado brasileiro, com acesso \u00e0s nossas comunica\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas e internet e infiltrando pessoas dentro dos nossos grupos para fazer vazar nossas estrat\u00e9gias e dar a conhecer os nomes das pessoas mais ativas e comprometidas. Imaginem o clima de desconfian\u00e7a e inseguran\u00e7a que temos&#8230;<\/p>\n<p>ZENIT: Voc\u00eas escreveram um livro sobre tudo isso \u201cIl Prezzo del ferro\u201d (EMI edi\u00e7\u00e3o) e criaram uma rede de resist\u00eancia. Pode contar-nos algo sobre?<\/p>\n<p>Pe. Dario Bossi: N\u00f3s o chamamos de &#8220;Justi\u00e7a nos Trilhos&#8221;, porque queremos que a ferrovia que atravessa 100 comunidades, em 27 munic\u00edpios ao longo dos 900 km do seu percurso da mina at\u00e9 o porto no oceano se torne um corredor de efetivo desenvolvimento, no protagonismo daqueles que ali moram, nas iniciativas produtivas familiares e no respeito da cultura e do estilo de vida destas popula\u00e7\u00f5es. \u00c9 muito importante que estas comunidades (ind\u00edgenas, afro-descendentes, agricultores, pescadores e moradores dos sub\u00farbios) sintam que s\u00e3o v\u00edtimas de um mesmo sistema e que esse pode mudar no momento em que aqueles que s\u00e3o afetados organizem esperan\u00e7a e resist\u00eancia. Estamos refor\u00e7ando a cada dia tamb\u00e9m a alian\u00e7a em rede com outros movimentos e grupos, para interagir as periferias com os centros deste mecanismo de mercado. Por exemplo, seguimos a cadeia de produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o e, com a ajuda do Centro Novo Modelo de Desenvolvimento, propomos dados e reflex\u00f5es sobre \u201cpre\u00e7o do ferro\u201d, indicando os custos humanos, sociais e ambientais que n\u00e3o s\u00e3o computados pelos mecanismos de mercado. Nesta constru\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as, nos aproximamos tamb\u00e9m da comunidade de Taranto que, da outra parte do oceano, se rebela contra a polui\u00e7\u00e3o e a morte causadas pela sider\u00fargica Ilva. O min\u00e9rio de ferro que cai nos altos-fornos da Ilva \u00e9 extra\u00edda das entranhas de Caraj\u00e1s! Acompanhar a viol\u00eancia e a dor causadas por este modelo de produ\u00e7\u00e3o e consumo nos leva a repensar o valor da vida, do futuro. Papa Francisco nos ensina que toda criatura tem um valor instrinseco, independente da sua utiliza\u00e7\u00e3o (cf. LS 140). Quando entendemos o valor da vida, recuperamos a capacidade de colocar-nos limites, para evitar o sofrimento ou a degrada\u00e7\u00e3o do que nos rodeia (cf. LS 208).<\/p>\n<p>ZENIT: Nas p\u00e1ginas de alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o a sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 confundida com manifesta\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter pol\u00edtico, e o vosso esp\u00edrito evang\u00e9lico de defesa dos \u00faltimos e dos pobres \u00e9 mostrado como extremista. Explique aos leitores qual \u00e9 o fundamento do vosso agir.<\/p>\n<p>Respeito os meios de comunica\u00e7\u00e3o e a influ\u00eancia que t\u00eam os v\u00e1rios comentaristas de plant\u00e3o, fa\u00e7o minhas as palavras do Papa no n. 49 da Laudato Si: \u201cTantos profissionais, comentarias, meios de comunica\u00e7\u00e3o e centros de poder est\u00e3o distantes deles, das \u00e1reas urbanas isoladas, sem contato direto com os seus problemas. Vivem e refletem a partir da comodidade de um desenvolvimento e de uma qualidade de vida que n\u00e3o est\u00e1 ao alcance da maior parte da popula\u00e7\u00e3o mundial. Esta falta de contato f\u00edsico e de encontro, \u00e0s vezes favorecida pela fragmenta\u00e7\u00e3o das nossas cidades, ajuda a cauterizar a consci\u00eancia e a ignorar parte da realidade em an\u00e1lise parcial&#8221;. N\u00f3s n\u00e3o precisamos nos justificar para ningu\u00e9m porque estamos do lado dos pobres. Mas quero \u201cdar-lhes raz\u00e3o\u201d, ou seja, tento indicar o significado que tem para n\u00f3s. Nos d\u00e1 alegria e sentido. A nossa consci\u00eancia, os nossos sentimentos e a nossa humanidade s\u00e3o profundamente provocadas e continuamente despertas ao estar do lado das pessoas mais simples, dos exclu\u00eddos e das v\u00edtimas. N\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel estar entre os pobres porque tamb\u00e9m l\u00e1 existe o ego\u00edsmo, conflito, raiva, desilus\u00e3o. Mas, certamente \u00e9 mais humano, e, portanto, mais divino. Deus se encarnou (e n\u00e3o o fez entre os ricos) justamente para que compreend\u00eassemos isso. Para fazer-nos sentir a beleza do lutar juntos, do procurar a vida e defende-la at\u00e9 o extremo. A beleza para descobrir raz\u00f5es de esperan\u00e7a na dor mais profunda. Caminhar junto das v\u00edtimas faz voc\u00ea entender bem o que significa \u201cesperar contra toda esperan\u00e7a\u201d. Percebo que, neste caminho, a sede de justi\u00e7a e a necessidade de miseric\u00f3rdia se aproximam at\u00e9 coincidir e dar o sentido mais profundo \u00e0 vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: ZENIT<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jovem, esbelto, magro, sorridente, bom. 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