{"id":11634,"date":"2015-09-15T14:23:11","date_gmt":"2015-09-15T17:23:11","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2015\/09\/15\/radio-renascenca-entrevistou-o-papa-texto-integral\/"},"modified":"2017-06-02T14:01:14","modified_gmt":"2017-06-02T17:01:14","slug":"radio-renascenca-entrevistou-o-papa-texto-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/radio-renascenca-entrevistou-o-papa-texto-integral\/","title":{"rendered":"R\u00e1dio Renascen\u00e7a entrevistou o Papa \u2013 texto integral"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/geral\/ansa853617_articolo.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Aura Miguel, jornalista da R\u00e1dio Renascen\u00e7a e vaticanista h\u00e1 29 anos, entrevistou o Papa Francisco no Vaticano durante a semana em que decorreu a visita \u201cad Limina Apostolorum\u201d dos bispos portugueses neste m\u00eas de setembro. Uma entrevista exclusiva que constitui um marco importante e significativo para a Emissora Cat\u00f3lica Portuguesa e para a Igreja em Portugal.<\/p>\n<p>Na entrevista o Papa Francisco afirma que as pessoas est\u00e3o desiludidas com a \u201ccorrup\u00e7\u00e3o a todos os n\u00edveis\u201d. Acredita que o \u201cgrande desafio da Europa \u00e9 voltar a ser a m\u00e3e Europa\u201d e apela ao acolhimento dos refugiados que est\u00e3o a chegar ao Velho Continente. Em particular em rela\u00e7\u00e3o a este problema o Papa Francisco afirma que a causa destes refugiados \u00e9 um sistema socioecon\u00f3mico mau e injusto.<\/p>\n<p>O Santo Padre nesta entrevista \u00e0 R\u00e1dio Renascen\u00e7a pede que a catequese \u201cn\u00e3o seja te\u00f3rica\u201d e que a Igreja saia de si mesma. Acredita que F\u00e1tima faz de Portugal um pa\u00eds \u201cprivilegiado\u201d e faz uma revela\u00e7\u00e3o interessante: \u201cNunca conheci um portugu\u00eas mau.\u201d<\/p>\n<p>Publicamos aqui o texto integral desta entrevista:<\/p>\n<p>Setembro de 2015<\/p>\n<p>Entrevista de Aura Miguel, jornalista da R\u00e1dio Renascen\u00e7a, ao Papa Francisco:<\/p>\n<p>Para um Papa que vem do \u201cfim do mundo\u201d, como olha para Portugal e para os portugueses?<\/p>\n<p>Em Portugal, s\u00f3 estive uma vez no aeroporto, h\u00e1 anos, quando vinha para Roma, num avi\u00e3o da Varig que fazia escala em Lisboa, por isso, s\u00f3 conhe\u00e7o o aeroporto. Mas conhe\u00e7o muitos portugueses. E, no Semin\u00e1rio de Buenos Aires, havia muitos empregados, emigrantes portugueses, gente boa, que tinha muita familiaridade com os seminaristas. E o meu pai tinha um colega de trabalho portugu\u00eas. Lembro-me do seu nome, Adelino, bom homem. E uma vez conheci uma senhora portuguesa, com mais de 80 anos, que me deixou boa impress\u00e3o. Quer dizer, nunca conheci um portugu\u00eas mau.<\/p>\n<p>No seu discurso aos bispos portugueses, al\u00e9m de elogiar o povo portugu\u00eas e olhar para a Igreja com serenidade, o Santo Padre manifesta duas preocupa\u00e7\u00f5es: uma em rela\u00e7\u00e3o aos jovens e outra em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 catequese. O Santo Padre usa uma imagem, dizendo que \u201cos vestidos da primeira comunh\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o servem aos jovens\u201d, mas que h\u00e1 \u201ccertas comunidades que insistem em vestir-lhos\u201d. Qual \u00e9 o problema?<\/p>\n<p>\u00c9 uma maneira de dizer. Os jovens s\u00e3o mais informais e t\u00eam o seu pr\u00f3prio ritmo. Temos de deixar que o jovem cres\u00e7a, temos de o acompanhar, n\u00e3o o deixar sozinho, mas acompanh\u00e1-lo. E saber acompanh\u00e1-lo com prud\u00eancia, saber falar no momento oportuno, saber escutar muito. Um jovem \u00e9 inquieto. N\u00e3o quer que o incomodem e, nesse sentido, pode-se dizer que \u201co vestido da primeira comunh\u00e3o n\u00e3o lhes serve\u201d. As crian\u00e7as, pelo contr\u00e1rio, quando v\u00e3o comungar, gostam do vestido da primeira comunh\u00e3o. \u00c9 uma ilus\u00e3o. Os jovens t\u00eam outras ilus\u00f5es que, muitas vezes, s\u00e3o muito boas, mas h\u00e1 que respeitar, porque eles mesmos n\u00e3o se entendem, porque est\u00e3o a mudar, est\u00e3o a crescer, est\u00e3o \u00e0 procura, n\u00e3o \u00e9? Por isso, \u00e9 preciso deixar o jovem crescer, h\u00e1 que o acompanhar, respeitar e falar-lhe muito paternalmente.<\/p>\n<p>Porque, ao mesmo tempo, h\u00e1 uma exig\u00eancia a propor, mas essa exig\u00eancia, muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 atractiva!<\/p>\n<p>Por isso, h\u00e1 que procurar aquilo que atrai um jovem e exigir-lho. Por exemplo, um caso concreto: se voc\u00ea prop\u00f5e a um jovem \u2013 e vemos isto por todo o lado \u2013 fazer uma caminhada, um acampamento ou fazer miss\u00e3o para outro s\u00edtio, ou por vezes ir a um \u201ccotolengo\u201d [obra fundada por sacerdote italiano de acolhimento de doentes com grave defici\u00eancia\u00a0 m\u00faltiplas, abandonadas pelas fam\u00edlias e em situa\u00e7\u00e3o de risco] para cuidar dos doentes, durante uma semana ou quinze dias, entusiasma-se porque quer fazer algo pelos outros. Est\u00e1 envolvido.<\/p>\n<p>\u201cInvolucrado\u201d?<\/p>\n<p>Sim, fica por dentro, compromete-se. N\u00e3o olha a partir de fora. Envolve-se, ou seja, compromete-se.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, porque \u00e9 que n\u00e3o fica?<\/p>\n<p>Porque est\u00e1 a caminhar.<\/p>\n<p>E qual \u00e9 o desafio que a Igreja, ent\u00e3o, deve enfrentar? O Santo Padre tamb\u00e9m falou de uma catequese, que muitas vezes permanece te\u00f3rica e onde falta esta capacidade de propor o encontro\u2026<\/p>\n<p>Pois \u00e9 importante que a catequese n\u00e3o seja puramente te\u00f3rica. Isso n\u00e3o serve. A catequese \u00e9 dar-lhes doutrina para a vida e, portanto, tem de incluir tr\u00eas linguagens, tr\u00eas idiomas: o idioma da cabe\u00e7a, o idioma do cora\u00e7\u00e3o e o idioma das m\u00e3os. E a catequese deve entrar nesses tr\u00eas idiomas: que o jovem pense e saiba qual \u00e9 a f\u00e9, mas que, por sua vez, sinta com o seu cora\u00e7\u00e3o o que \u00e9 a f\u00e9 e, por sua vez, fa\u00e7a coisas. Se falta \u00e0 catequese uma destas tr\u00eas l\u00ednguas, destes tr\u00eas idiomas, n\u00e3o avan\u00e7a. Tr\u00eas linguagens: pensar o que se sente e o que se faz, sentir o que se pensa e o que se faz, fazer o que se sente e o que se pensa.<\/p>\n<p>Escutando vossa Santidade, isto parece \u00f3bvio, mas, olhando \u00e0 volta \u2013 sobretudo na velha Europa, na velha cristandade \u2013 n\u00e3o \u00e9 assim. O que \u00e9 que falta? Mudar a mentalidade? Como se faz?<\/p>\n<p>Mudar a mentalidade, n\u00e3o sei, porque n\u00e3o conhe\u00e7o tudo, n\u00e3o \u00e9? Mas \u00e9 verdade que, a metodologia catequ\u00e9tica, \u00e0s vezes, n\u00e3o \u00e9 completa. H\u00e1 que procurar uma metodologia da catequese que junte as tr\u00eas coisas: as verdades que se devem crer, o que se deve sentir e o que se faz, o que se deve fazer, tudo junto.<\/p>\n<p>Santidade, para o centen\u00e1rio das apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora de F\u00e1tima, n\u00f3s esperamos por si em Portugal. Tr\u00eas Papas j\u00e1 nos visitaram (Jo\u00e3o Paulo II por tr\u00eas vezes). O Senhor, que ama muito a Virgem, o que espera da sua visita em 2017?<\/p>\n<p>Bom, vamos l\u00e1 esclarecer as coisas. Eu tenho vontade de ir a Portugal para o centen\u00e1rio. Em 2017 tamb\u00e9m se cumprem 300 anos do encontro da Imagem da Virgem de Aparecida.<\/p>\n<p>\u2026. uma data estereof\u00f3nica, em dois lados! (risos)<\/p>\n<p>&#8230; por isso, tamb\u00e9m estou com vontade de l\u00e1 ir e j\u00e1 prometi\u00a0 l\u00e1 ir. Quanto a Portugal, disse que tenho vontade de ir e gostaria de ir. \u00c9 mais f\u00e1cil ir a Portugal, porque podemos ir e voltar num s\u00f3 dia, um dia inteiro, ou, quanto muito, ir um dia e meio ou dois dias. Ir ter com a Virgem. A Virgem \u00e9 m\u00e3e, \u00e9 muito m\u00e3e, e a sua presen\u00e7a acompanha o povo de Deus. Por isso, gostaria de ir a Portugal, que \u00e9 privilegiado.<\/p>\n<p>E o que espera de n\u00f3s, portugueses? Como podemos preparar-nos para o receber e tamb\u00e9m para seguir os pedidos de Nossa Senhora?<\/p>\n<p>O que a Virgem pede sempre \u00e9 que rezemos, que cuidemos da fam\u00edlia e dos mandamentos. N\u00e3o pede coisas estranhas. Pede que rezemos pelos que andam desorientados, pelos que se dizem pecadores \u2013 todos o somos, eu sou o primeiro. Mas a Virgem pede e h\u00e1 que se preparar atrav\u00e9s desses pedidos da Virgem, atrav\u00e9s dessas mensagens t\u00e3o maternais, t\u00e3o maternais&#8230; e manifestando-se \u00e0s crian\u00e7as. \u00c9 curioso, Ela procura sempre almas muito simples, n\u00e3o \u00e9? Muito simples.<\/p>\n<p>Esta entrevista acontece em plena crise dos refugiados. Santo Padre, como est\u00e1 a viver esta situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 a ponta de um icebergue. Vemos estes refugiados, esta pobre gente que escapa da guerra, que escapa da fome, mas essa \u00e9 a ponta do icebergue. Porque debaixo dele, est\u00e1 a causa; e a causa \u00e9 um sistema socioecon\u00f3mico mau e injusto, porque dentro de um sistema econ\u00f3mico, dentro de tudo, dentro do mundo \u2013 falando do problema ecol\u00f3gico \u2013, dentro da sociedade socioecon\u00f3mica, dentro da pol\u00edtica, o centro tem de ser sempre a pessoa. E o sistema econ\u00f3mico dominante, hoje em dia, descentrou a pessoa, colocando no centro o deus dinheiro, que \u00e9 o \u00eddolo da moda. Ou seja, h\u00e1 estat\u00edsticas, n\u00e3o me recordo bem (isto n\u00e3o \u00e9 exacto e posso equivocar-me), mas 17% da popula\u00e7\u00e3o mundial det\u00e9m 80% das riquezas.<\/p>\n<p>E esta explora\u00e7\u00e3o das riquezas dos pa\u00edses mais pobres, a m\u00e9dio prazo traz esta consequ\u00eancia: a de estes todos que agora querem vir para a Europa\u2026<\/p>\n<p>E o mesmo acontece nas grandes cidades. Por que surgem as favelas nas grandes cidades?<\/p>\n<p>O crit\u00e9rio \u00e9 o mesmo\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 o mesmo; \u00e9 gente que vem do campo, porque o desflorestaram, porque fizeram monocultivo, n\u00e3o t\u00eam trabalho e v\u00e3o para as grandes cidades.<\/p>\n<p>Em \u00c1frica, tamb\u00e9m \u00e9 igual\u2026<\/p>\n<p>Em \u00c1frica&#8230; ou seja, \u00e9 o mesmo fen\u00f3meno. Ent\u00e3o, esta gente emigrada que vem para a Europa \u2013 \u00e9 a mesma coisa \u2013 \u00e0 procura de um s\u00edtio. E, claro, para a Europa neste momento, \u00e9 uma surpresa, porque at\u00e9 custa a crer que isto esteja a acontecer, n\u00e3o \u00e9? Mas acontece.<\/p>\n<p>Mas o Santo Padre, quando foi a Estrasburgo, disse que era \u201cnecess\u00e1rio actuar sobre as causas e n\u00e3o apenas sobre os efeitos\u201d. Mas parece que ningu\u00e9m ouviu e, agora, os efeitos est\u00e3o \u00e0 vista\u2026<\/p>\n<p>Temos de ir \u00e0s causas.<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m o ouviu, muito provavelmente\u2026<\/p>\n<p>Onde as causas s\u00e3o a fome, h\u00e1 que criar fontes de trabalho, investimentos. Onde a causa \u00e9 a guerra, procurar a paz, trabalhar pela paz. Hoje em dia, o mundo est\u00e1 em guerra contra si mesmo, ou seja, o mundo est\u00e1 em guerra, como digo, uma guerra em folhetins, aos peda\u00e7os, mas tamb\u00e9m est\u00e1 em guerra contra a Terra, porque est\u00e1 a destruir a Terra, ou seja, a nossa casa comum, o ambiente. Os glaciares est\u00e3o a derreter-se, no \u00c1rctico, o urso branco vai cada vez mais para o norte para poder sobreviver.<\/p>\n<p>E a preocupa\u00e7\u00e3o pelo homem e pelo seu destino, parece ignorada. Como v\u00ea a reac\u00e7\u00e3o da Europa \u00e0 vaga de refugiados? Uns constroem muros, outros escolhem os refugiados consoante a sua religi\u00e3o, outros aproveitam esta situa\u00e7\u00e3o para fazer discursos populistas.<\/p>\n<p>Cada um faz uma interpreta\u00e7\u00e3o da sua cultura. E, por vezes, a interpreta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, ou das ideias, \u00e9 mais f\u00e1cil do que fazer as coisas, que \u00e9 a realidade. Mais longe da Europa, h\u00e1 um outro fen\u00f3meno que tamb\u00e9m me doeu muito: os \u201crohingya\u201d [grupo \u00e9tnico mu\u00e7ulmano, provavelmente, com origem na antiga Birm\u00e2nia. Marginalizados por raz\u00f5es \u00e9tnicas e religiosas, foram apontados pela ONU como uma das minorias mais perseguidas do mundo], que foram expulsos do seu pa\u00eds e que entram num barco e partem. Chegam a um porto ou a uma praia, d\u00e3o-lhes \u00e1gua, d\u00e3o-lhes de comer e depois, mandam-nos outra vez para o mar e n\u00e3o os acolhem. Ou seja, falta a capacidade de acolhimento da humanidade.<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o \u00e9 tolerar; \u00e9 mais do que toler\u00e2ncia: \u00e9 acolhimento.<\/p>\n<p>Acolher, acolher as pessoas, e acolher tal como v\u00eam. Eu sou filho de emigrantes e perten\u00e7o \u00e0 onda migrante do ano 29. Mas na Argentina, desde o ano 84 (1884), come\u00e7aram a chegar italianos, espanh\u00f3is&#8230; portugueses, n\u00e3o sei quando chegou a primeira onda portuguesa; vinham sobretudo destes tr\u00eas pa\u00edses. E quando chegavam l\u00e1, alguns tinham dinheiro, outros iam para o hotel de emigrantes e da\u00ed eram enviados para as cidades. Iam trabalhar ou procurar trabalho. \u00c9 verdade que, naquela \u00e9poca, havia trabalho, mas, os da minha fam\u00edlia \u2013 que tinham trabalho quando chegaram, em 29 \u2013, no ano 32, com a crise econ\u00f3mica de 30, ficaram na rua, sem nada. O meu av\u00f4 comprou um armaz\u00e9m com dois mil pesos que lhe emprestaram e o meu pai, que era contabilista, andava a fazer distribui\u00e7\u00e3o com a canasta; ou seja, tinham vontade de lutar, de vencer&#8230; Eu sei o que \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o! E depois, vieram as migra\u00e7\u00f5es da Segunda Guerra, sobretudo do centro da Europa, muitos polacos, eslovacos, croatas, eslovenos e tamb\u00e9m da S\u00edria e do L\u00edbano. E sempre nos demos bem por l\u00e1. Na Argentina, n\u00e3o houve xenofobia. E agora, h\u00e1 migra\u00e7\u00e3o interna na Am\u00e9rica, v\u00eam de outros pa\u00edses da Am\u00e9rica para a Argentina, apesar de ter diminu\u00eddo nos \u00faltimos anos, por falta de trabalho na Argentina.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m do M\u00e9xico para os Estados Unidos. H\u00e1 todo um fen\u00f3meno\u2026<\/p>\n<p>O fen\u00f3meno migrat\u00f3rio \u00e9 uma realidade. Mas eu queria abordar o tema, sem censurar ningu\u00e9m. Quando h\u00e1 um espa\u00e7o vazio, a gente procura preench\u00ea-lo. Se um pa\u00eds n\u00e3o tem filhos, v\u00eam os emigrantes ocupar o lugar. Penso no n\u00edvel dos nascimentos de It\u00e1lia, Portugal e Espanha. Creio que \u00e9 quase 0%. Ent\u00e3o, se n\u00e3o h\u00e1 filhos, h\u00e1 espa\u00e7os vazios. Ou seja, o n\u00e3o querer ter filhos, em parte, \u2013 e isto \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o minha, n\u00e3o sei se est\u00e1 correcta \u2013 \u00e9 um pouco o resultado da cultura do bem-estar, n\u00e3o \u00e9? Eu ouvi, dentro da minha pr\u00f3pria fam\u00edlia, c\u00e1, h\u00e1 uns anos, por parte dos meus primos italianos dizer: \u201cN\u00e3o, crian\u00e7as, n\u00e3o; preferimos viajar nas f\u00e9rias, ou comprar uma \u2018villa\u2019, ou isto ou aquilo\u201d&#8230; e os idosos v\u00e3o ficando sozinhos. Creio que o grande desafio da Europa \u00e9 voltar a ser a m\u00e3e Europa&#8230;<\/p>\n<p>E n\u00e3o a\u2026<\/p>\n<p>&#8230; a av\u00f3 Europa. Perd\u00e3o, h\u00e1 pa\u00edses da Europa que s\u00e3o jovens, por exemplo, a Alb\u00e2nia. A Alb\u00e2nia impressionou-me, gente com 40 anos, 45 anos&#8230; e a B\u00f3snia-Herzegovina, ou seja, pa\u00edses que se refizeram depois de uma guerra, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Por isso, o Santo Padre os visitou\u2026<\/p>\n<p>Ah sim, claro. \u00c9 um sinal para a Europa.<\/p>\n<p>Mas este desafio do acolhimento a estes refugiados que est\u00e3o a entrar, na sua perspectiva, pode ser muito positivo para a Europa? \u00c9 um benef\u00edcio, uma provoca\u00e7\u00e3o? Finalmente, de algum modo, a Europa pode despertar, mudar de rumo?<\/p>\n<p>Pode ser. \u00c9 verdade e reconhe\u00e7o que, hoje em dia, as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a territorial n\u00e3o s\u00e3o as mesmas de outra \u00e9poca porque, na verdade, temos, a 400 quil\u00f3metros da Sic\u00edlia, uma guerrilha terrorista sumamente cruel, n\u00e3o \u00e9? Ent\u00e3o, existe o perigo da infiltra\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>E que pode chegar at\u00e9 Roma.<\/p>\n<p>Ah sim, ningu\u00e9m assegurou que Roma seja imune a isto, n\u00e3o \u00e9? Mas podem-se tomar precau\u00e7\u00f5es e p\u00f4r toda a gente que vem a trabalhar. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 outro problema, \u00e9 que a Europa atravessa uma crise laboral muito grande. H\u00e1 um pa\u00eds, melhor, vou falar de tr\u00eas pa\u00edses, mas que n\u00e3o vou nomear, dos mais importantes da Europa, em que o desemprego juvenil dos jovens com menos de 25 anos, num pa\u00eds \u00e9 de 40%, noutro pa\u00eds \u00e9 de 47% e noutro \u00e9 de 50%. H\u00e1 uma crise laboral, o jovem n\u00e3o encontra trabalho. Ou seja, misturam-se muitas coisas. Nisto, n\u00e3o podemos ser simplistas. Evidentemente, se chega um refugiado, com as medidas de seguran\u00e7a de todo o tipo, h\u00e1 que receb\u00ea-lo, porque \u00e9 um mandamento da B\u00edblia. Mois\u00e9s disse ao seu povo: \u201cRecebei o forasteiro porque n\u00e3o esque\u00e7ais que v\u00f3s fostes forasteiros no Egipto\u201d.<\/p>\n<p>Mas o ideal era que eles n\u00e3o tivessem fugido, que ficassem nas suas terras, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Isso, sim.<\/p>\n<p>No Angelus de 6 de Setembro, lan\u00e7ou o desafio \u00e0s par\u00f3quias para que acolham refugiados. J\u00e1 houve reac\u00e7\u00f5es? O que espera em concreto?<\/p>\n<p>O que eu pedi foi isto: que cada par\u00f3quia, cada instituto religioso, cada mosteiro, acolha uma fam\u00edlia. Uma fam\u00edlia, n\u00e3o uma pessoa. Uma fam\u00edlia d\u00e1 mais seguran\u00e7a de conten\u00e7\u00e3o, um pouco para evitar que haja infiltra\u00e7\u00f5es de outro tipo. Quando digo que uma par\u00f3quia deve acolher uma fam\u00edlia, n\u00e3o digo que tenham de ir viver para a casa do padre, para a casa paroquial, mas que toda a comunidade paroquial veja se h\u00e1 um lugar, um canto num col\u00e9gio para a\u00ed se fazer um pequeno apartamento ou, na pior das hip\u00f3teses, que arrendem um modesto apartamento para essa fam\u00edlia; mas que tenham um tecto, que sejam acolhidos e que se integrem na comunidade. J\u00e1 tive muitas reac\u00e7\u00f5es, muitas, muitas. H\u00e1 conventos que est\u00e3o quase vazios.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, o Santo Padre j\u00e1 fez esse apelo e que resultados \u00e9 que houve?<\/p>\n<p>S\u00f3 quatro. Um deles, dos jesu\u00edtas (risos); muito bem, os jesu\u00edtas! Mas o assunto \u00e9 s\u00e9rio, porque a\u00ed tamb\u00e9m h\u00e1 a tenta\u00e7\u00e3o do deus dinheiro. Algumas congrega\u00e7\u00f5es dizem \u201cN\u00e3o, agora que o convento est\u00e1 vazio, vamos fazer um hotel e podemos receber pessoas e, com isso, sustentamo-nos ou ganhamos dinheiro\u201d. Pois bem, se quereis fazer isso, pagai os impostos! Um col\u00e9gio religioso, por ser religioso est\u00e1 isento de impostos, mas se funciona como hotel, ent\u00e3o, que pague os impostos como qualquer vizinho do lado. Sen\u00e3o, o neg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 limpo.<\/p>\n<p>E o Santo Padre j\u00e1 disse que, aqui no Vaticano, acolhe duas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Sim, duas fam\u00edlias. J\u00e1 me disseram ontem que as fam\u00edlias j\u00e1 estavam localizadas e as duas par\u00f3quias do Vaticano encarregaram-se de as procurar.<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e3o identificadas?<\/p>\n<p>Sim, sim, sim, j\u00e1 est\u00e3o. Quem o fez foi o cardeal Comastri, que \u00e9 o meu vig\u00e1rio-geral para o Vaticano, juntamente com o encarregado da Esmolaria Apost\u00f3lica, monsenhor Konrad Krajewski, que trabalha com os sem-abrigo e foi quem fez os duches debaixo da colunata, o servi\u00e7o de barbearia \u2013 realmente, uma maravilha \u2013 \u00e9 o que leva os que vivem na rua a ver os museus e a Capela Sistina.<\/p>\n<p>E estas fam\u00edlias ficam at\u00e9 quando?<\/p>\n<p>At\u00e9 quando o Senhor quiser. N\u00e3o se sabe como isto vai acabar, n\u00e3o \u00e9? De todas as maneiras, quero dizer que a Europa tomou consci\u00eancia, e eu agrade\u00e7o-lhe. Agrade\u00e7o aos pa\u00edses da Europa que tomaram consci\u00eancia disto.<\/p>\n<p>A Renascen\u00e7a aderiu em Portugal a uma iniciativa, que re\u00fane institui\u00e7\u00f5es crist\u00e3s e tamb\u00e9m de outras religi\u00f5es, para acolher e movimentar-se a favor dos refugiados. Pode dizer algumas palavras a quem participa nesta plataforma?<\/p>\n<p>Felicito-vos e agrade\u00e7o-vos pelo que est\u00e3o a fazer e dou-vos um conselho: no dia do Ju\u00edzo Final, j\u00e1 sabemos sobre o que vamos ser julgados, est\u00e1 escrito no cap\u00edtulo 25 de S\u00e3o Mateus. Quando Jesus vos disser \u201cEstive com fome, deste-me de comer?\u201d, voc\u00eas v\u00e3o dizer \u201cSim. \u201cE quando estive sem ref\u00fagio, como refugiado, ajudaste-me?\u201d, \u201cSim\u201d. Pois, felicito-vos: v\u00e3o passar no exame! E tamb\u00e9m queria dizer uma coisa sobre o trabalho com jovens desocupados. Creio que aqui \u00e9 urgente, sobretudo para as congrega\u00e7\u00f5es religiosas que t\u00eam como carisma a educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m os leigos, os educadores leigos, que inventem cursos, pequenas escolas de emerg\u00eancia. Ent\u00e3o, para um jovem que est\u00e1 desocupado, se estudar, durante seis meses, para ser cozinheiro ou canalizador, para fazer pequenas repara\u00e7\u00f5es \u2013 h\u00e1 sempre um tecto para arranjar &#8211; ou para pintor, com esse of\u00edcio, ter\u00e1 mais possibilidade de encontrar um trabalho, ainda que parcial ou tempor\u00e1rio. Fazer o que n\u00f3s chamamos de \u201cbiscate\u201d, um trabalho ocasional e com isso n\u00e3o est\u00e1 totalmente desocupado. Mas hoje \u00e9 o tempo da educa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. Foi o que fez Dom Bosco. Dom Bosco, quando viu a quantidade de crian\u00e7as que havia na rua, disse \u201ctem de haver educa\u00e7\u00e3o\u201d, mas n\u00e3o mandou as crian\u00e7as para a escola m\u00e9dia ou secund\u00e1ria, sim aprender of\u00edcios. Ent\u00e3o, preparou carpinteiros, canalizadores, que os ensinavam a trabalhar e, assim, j\u00e1 tinham com que ganhar o p\u00e3o. Dom Bosco fez isso. E agora gostava de contar um epis\u00f3dio sobre Dom Bosco. Aqui em Roma, perto do Trastevere, onde&#8230;<\/p>\n<p>Era uma zona pobre.<\/p>\n<p>Sim, era uma zona muito pobre, mas que agora \u00e9 zona da moda para os jovens, para a \u201cmovida\u201d, n\u00e3o \u00e9? Pois Dom Bosco passou por ali, ia de carruagem \u2013 ou de carro, n\u00e3o sei \u2013 e atiraram-lhe uma pedrada que partiu o vidro. Ele mandou parar e disse: \u201cEste \u00e9 o lugar que onde vamos ficar!\u201d. Ou seja, perante uma agress\u00e3o, n\u00e3o a viveu como agress\u00e3o, viveu-a como um desafio para ajudar aquela gente, as crian\u00e7as, os jovens que s\u00f3 sabiam agredir. E hoje, existe ali uma par\u00f3quia salesiana que forma jovens e crian\u00e7as, com as suas escolas e as suas coisas. Assim, volto ao tema dos jovens: o importante \u00e9 que hoje se d\u00ea, aos jovens que n\u00e3o t\u00eam trabalho, uma educa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia sobre algum of\u00edcio que lhes permita ganhar a vida.<\/p>\n<p>\u00c9 muito cr\u00edtico tamb\u00e9m sobre o estilo de vida ocidental e da Europa, o chamado primeiro mundo, muito centrado no bem-estar. O que \u00e9 que o incomoda mais?<\/p>\n<p>Bem, quer dizer, tamb\u00e9m nas grandes cidades americanas, quer da Am\u00e9rica do Norte, quer da Am\u00e9rica do Sul, existe este mesmo problema, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na Europa&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;\u00e9 o chamado primeiro mundo.<\/p>\n<p>Sim, nas grandes cidades&#8230; Em Buenos Aires h\u00e1 um grande sector da cultura do bem-estar e, por isso, tamb\u00e9m h\u00e1 esses cord\u00f5es \u00e0 volta das cidades, as favelas e todas essas coisas, n\u00e3o \u00e9? Eu, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, hoje, n\u00e3o lhe atiraria \u00e0 cara este tipo de coisas. H\u00e1 que reconhecer que a Europa tem uma cultura excepcional. Realmente, s\u00e3o s\u00e9culos de cultura e isso tamb\u00e9m d\u00e1 um bem-estar intelectual. Em todo o caso, o que eu diria da Europa, \u00e9 a sua capacidade de retomar uma lideran\u00e7a no concerto das na\u00e7\u00f5es. Ou seja, que volte a ser a Europa que define rumos, pois tem cultura para o fazer.<\/p>\n<p>Mas mant\u00e9m a identidade, hoje em dia, a Europa? Est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de afirmar a sua identidade?<\/p>\n<p>O que eu disse em Estrasburgo, pensei muito antes de o dizer. Ou seja, volto a repetir um pouco isso: a Europa ainda n\u00e3o morreu. Est\u00e1 meia-avozinha [risos], mas pode voltar a ser m\u00e3e. E eu tenho confian\u00e7a nos pol\u00edticos jovens. Os pol\u00edticos jovens tocam outra m\u00fasica. H\u00e1 um problema mundial, que afecta n\u00e3o s\u00f3 a Europa, mas o mundo inteiro, que \u00e9 o problema da corrup\u00e7\u00e3o. A corrup\u00e7\u00e3o a todos os n\u00edveis&#8230; e isso tamb\u00e9m revela um baixo n\u00edvel moral, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>O Santo Padre fala disso na sua \u00faltima enc\u00edclica e pede para as popula\u00e7\u00f5es estarem mais conscientes. No entanto, verifica-se muita absten\u00e7\u00e3o. Se vemos os resultados das elei\u00e7\u00f5es, a absten\u00e7\u00e3o \u00e9 quase maior do que um partido\u2026<\/p>\n<p>Porque a gente est\u00e1 desiludida. Em parte, por causa da corrup\u00e7\u00e3o, em parte pela inefic\u00e1cia, em parte pelos compromissos assumidos anteriormente. E, no entanto, a Europa \u2013 volto a dizer o que disse em Estrasburgo \u2013 tem que desempenhar o seu papel, ou seja, recuperar a sua identidade. \u00c9 verdade que a Europa se enganou \u2013 n\u00e3o estou a criticar, mas s\u00f3 a recordar \u2013, quando quis falar da sua identidade sem querer reconhecer o mais profundo da sua identidade, que \u00e9 a sua raiz crist\u00e3, n\u00e3o foi? A\u00ed enganou-se. Bom, mas todos nos enganamos na vida&#8230; est\u00e1 a tempo de recuperar a sua f\u00e9.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que pode tocar a liberdade de algu\u00e9m que \u201cfaz o que quer\u201d e que foi educado desde pequeno com um conceito de felicidade para quem \u201ca felicidade \u00e9 n\u00e3o ter problemas\u201d? Em geral, educam-se as crian\u00e7as com este desejo de que a felicidade \u00e9 \u201cn\u00e3o ter problemas e fazer o que se quer\u201d.<\/p>\n<p>Uma vida sem problemas \u00e9 aborrecida. \u00c9 um t\u00e9dio. O homem tem, dentro de si, a necessidade de enfrentar e de resolver conflitos e problemas. Evidentemente, uma educa\u00e7\u00e3o para n\u00e3o ter problemas, \u00e9 uma educa\u00e7\u00e3o ass\u00e9ptica. Fa\u00e7a voc\u00ea mesma a experi\u00eancia: pegue num copo de \u00e1gua mineral, de \u00e1gua comum, da torneira, e depois pegue num copo com \u00e1gua destilada. Mete nojo, mas a \u00e1gua destilada n\u00e3o tem problemas&#8230; (risos) \u00e9 como educar as crian\u00e7as no laborat\u00f3rio, n\u00e3o \u00e9? Por favor!<\/p>\n<p>Arriscar \u00e9 importante?<\/p>\n<p>Correr o risco, propor sempre metas! Para educar, faz falta usar os p\u00e9s. Para educar bem, h\u00e1 que ter um p\u00e9 bem apoiado no ch\u00e3o e o outro p\u00e9 levantado mais \u00e0 frente e ver onde o posso apoiar. E quando tenho apoiado o outro, levanto este [faz o gesto com os p\u00e9s] e&#8230; isso \u00e9 educar: apoiar-se sobre algo seguro, mas tentar dar um passo em frente at\u00e9 que o tenha firme e, depois, dar outro passo.<\/p>\n<p>D\u00e1 mais trabalho educar assim\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 arriscar! Porqu\u00ea? Porque talvez piso mal e caio&#8230; pois bem, levantas-te e segues em frente!<\/p>\n<p>Na onda individualista em que vivemos \u2013 falou nisso em Estrasburgo \u2013 parece um capricho exigir direitos, sempre mais direitos separados da busca da verdade. Cr\u00ea que isto \u00e9 tamb\u00e9m um problema na maneira de viver a f\u00e9?<\/p>\n<p>Pode ser&#8230; sempre com mais exig\u00eancias, sem a generosidade de dar. Ou seja, \u00e9 exigir s\u00f3 os meus direitos e n\u00e3o os meus deveres perante a sociedade, n\u00e3o \u00e9? Eu creio que direitos e deveres caminham juntos. Sen\u00e3o, isso, cria a educa\u00e7\u00e3o do espelho; porque a educa\u00e7\u00e3o do espelho \u00e9 o narcisismo e hoje estamos numa civiliza\u00e7\u00e3o narcisista.<\/p>\n<p>E como \u00e9 que se a vence, como se combate?<\/p>\n<p>Com a educa\u00e7\u00e3o, por exemplo, com direitos e deveres, com a educa\u00e7\u00e3o dos riscos razo\u00e1veis, procurando metas, avan\u00e7ando e n\u00e3o ficando quieto ou a olhar ao espelho&#8230; n\u00e3o v\u00e1 acontecer-nos como aconteceu ao Narciso que, de tanto se olhar espelhado na \u00e1gua e se achar t\u00e3o lindo, t\u00e3o lindo, \u201cblup\u201d, afogou-se. [risos]<\/p>\n<p>Diz que prefere uma igreja acidentada a uma igreja estagnada. O que entende por \u201cigreja acidentada\u201d?<\/p>\n<p>Sim, eu explico: \u00e9 uma imagem de vida. Se uma pessoa tem em sua casa uma divis\u00e3o, um quarto, fechado durante muito tempo, surge a humidade, o mofo e o mau cheiro. Se uma igreja, uma par\u00f3quia, uma diocese, um instituto, vive fechada em si mesmo, adoece (acontece o mesmo com o quarto fechado) e ficamos com uma Igreja raqu\u00edtica, com normas r\u00edgidas, sem criatividade, segura, mais que segura, assegurada por uma companhia de seguros, mas n\u00e3o segura! Pelo contr\u00e1rio, se sai \u2013 se uma igreja, uma par\u00f3quia saem \u2013 l\u00e1 para fora, a evangelizar, pode acontecer-lhe o mesmo que acontece a qualquer pessoa que sai para a rua: ter um acidente. Ent\u00e3o, entre uma igreja doente e uma Igreja acidentada, prefiro uma acidentada porque, pelo menos, saiu para a rua.<\/p>\n<p>E aqui, quero repetir uma coisa que j\u00e1 disse noutra ocasi\u00e3o: na B\u00edblia, no Apocalipse, h\u00e1 uma coisa linda de Jesus, creio que no segundo cap\u00edtulo (no final do primeiro ou no segundo), em que est\u00e1 a falar a uma Igreja e diz: \u201cEstou \u00e0 porta e chamo\u201d &#8211; Jesus est\u00e1 a bater \u2013 \u201cSe me abres a porta, entro e vou comer contigo\u201d. Mas eu pergunto: quantas vezes, na Igreja, Jesus bate \u00e0 porta, mas do lado de dentro, para que O deixemos sair a anunciar o reino? Por vezes, apropriamo-nos de Jesus s\u00f3 para n\u00f3s, e esquecemo-nos que uma Igreja que n\u00e3o est\u00e1 em sa\u00edda, uma Igreja que n\u00e3o sai, mant\u00e9m Jesus preso, aprisionado.<\/p>\n<p>Foi por causa disso que foi eleito Papa?<\/p>\n<p>Isso pergunte ao Esp\u00edrito Santo! [risos]<\/p>\n<p>Desde que \u00e9 Papa, considera que a Igreja est\u00e1 mais acidentada?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Sei que, pelo que me dizem, Deus est\u00e1 a aben\u00e7oar muito a sua Igreja. \u00c9 um momento que n\u00e3o depende da minha pessoa, mas da b\u00ean\u00e7\u00e3o que Deus quis dar \u00e0 sua Igreja, neste momento. E agora, com este Jubileu da Miseric\u00f3rdia, espero que muita gente sinta a Igreja como m\u00e3e. Porque pode acontecer \u00e0 Igreja o mesmo que aconteceu \u00e0 Europa, n\u00e3o \u00e9? Ficar demasiadamente av\u00f3, em vez de m\u00e3e, incapaz de gerar vida.<\/p>\n<p>\u00c9 este \u00e9 o motivo do Jubileu da Miseric\u00f3rdia?<\/p>\n<p>Que venham todos! Que venham e sintam o amor e o perd\u00e3o de Deus. Conheci, em Buenos Aires, um frade capuchinho, um pouco mais novo do que eu, que \u00e9 um grande confessor. Tem sempre uma grande fila, com muita gente, est\u00e1 todo o dia a confessar. Ele \u00e9 um grande \u201cperdoador\u201d, perdoa muito. E, \u00e0s vezes, tem escr\u00fapulos por ter perdoado muito. Ent\u00e3o, uma vez, em conversa, disse-me: \u201c\u00c0s vezes, tenho escr\u00fapulos\u201d. E eu perguntei-lhe: \u201cE o que fazes, quando tens esses escr\u00fapulos?\u201d. \u201cVou diante do sacr\u00e1rio, olho para o Senhor e digo-lhe: Senhor, perdoai-me, hoje perdoei muito, mas que fique bem claro que a culpa \u00e9 toda vossa, porque fostes V\u00f3s a dar-me o mau exemplo!&#8221;<\/p>\n<p>Por isso o Santo Padre, neste sentido, tamb\u00e9m decidiu, nesta carta [a monsenhor Rino Fisichella sobre o Jubileu da Miseric\u00f3rdia] propor o perd\u00e3o \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis e agora mesmo publicou estas cartas [de \u201cmotu proprio\u201d, iniciativas do Papa que t\u00eam normalmente a forma de decreto] que aceleram os processos de nulidade. Isto tamb\u00e9m tem a ver com o Jubileu?<\/p>\n<p>Sim, simplificar&#8230; Facilitar a f\u00e9 \u00e0s pessoas. E que a Igreja seja m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>A raz\u00e3o destas cartas \u201cmotu proprio\u201d para a nulidade qual \u00e9, exactamente, \u00e9 agilizar?<\/p>\n<p>Agilizar, agilizar os processos nas m\u00e3os do bispo. Um juiz, um defensor do v\u00ednculo, s\u00f3 uma senten\u00e7a, porque at\u00e9 agora havia duas senten\u00e7as. N\u00e3o, agora, \u00e9 s\u00f3 uma. Se n\u00e3o houver apelo, j\u00e1 est\u00e1. Se houver apelo, vai para o metropolita, mas agilizar. E tamb\u00e9m a gratuidade dos processos.<\/p>\n<p>O Santo Padre fez isto a pensar tamb\u00e9m no S\u00ednodo e no Jubileu?<\/p>\n<p>Est\u00e1 tudo relacionado.<\/p>\n<p>J\u00e1 sei que n\u00e3o quer falar do S\u00ednodo, mas, no seu cora\u00e7\u00e3o de pastor universal, o que pede?<\/p>\n<p>Pe\u00e7o que rezem muito. Sobre o S\u00ednodo, voc\u00eas os jornalistas, j\u00e1 conhecem o \u201cInstrumentum Laboris\u201d. Vai-se falar disso, do que l\u00e1 est\u00e1. S\u00e3o tr\u00eas semanas, um tema, um cap\u00edtulo, para cada semana. E esperam-se muitas coisas, porque, evidentemente, a fam\u00edlia est\u00e1 em crise. Os jovens n\u00e3o se casam. N\u00e3o se casam. Ou ent\u00e3o, com esta cultura do provis\u00f3rio, dizem \u201cou vivo junto ou me caso, mas s\u00f3 enquanto dura o amor, depois, tchau&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E que diz a quem vive uma moral contr\u00e1ria \u00e0 indica\u00e7\u00e3o da Igreja e que tem esta ansiedade de perd\u00e3o?<\/p>\n<p>L\u00e1 no S\u00ednodo vai-se falar de todas as possibilidades de ajudar estas fam\u00edlias. Que uma coisa fique clara \u2013 e que o Papa Bento o deixou bem esclarecido: as pessoas que vivem uma segunda uni\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o excomungadas e t\u00eam de ser integradas na vida da Igreja. Isso ficou clar\u00edssimo. E eu, no outro dia na catequese, tamb\u00e9m o disse claramente: aproximar-se da missa, da catequese, na educa\u00e7\u00e3o dos filhos, nas obras de caridade&#8230; h\u00e1 mil coisas, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Santidade, gostaria de terminar com perguntas sobre a sua voca\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio de Mar\u00e7o de 2013, preparava-se para ir para a \u201creforma\u201d. J\u00e1 tinha decidido onde ia ficar a viver, etc.. No entanto, tornou-se um dos homens mais famosos a n\u00edvel mundial. Como vive esta circunst\u00e2ncia?<\/p>\n<p>N\u00e3o perdi a paz. \u00c9 um dom&#8230; a paz \u00e9 um dom de Deus. \u00c9 um dom que Deus me deu, algo que eu n\u00e3o imaginava, pela idade que tenho e por tudo isso. E, mais ainda, eu at\u00e9 j\u00e1 tinha previsto o meu regresso, pensando que nenhum Papa seria escolhido na Semana Santa. Ent\u00e3o, se demor\u00e1ssemos a eleg\u00ea-lo, ter\u00edamos de nos despachar at\u00e9 s\u00e1bado, antes do Domingo de Ramos. E comprei um bilhete de regresso, para poder celebrar Missa no Domingo de Ramos e at\u00e9 deixei preparada, na minha escrivaninha, a homilia. Foi uma coisa que eu n\u00e3o esperava e, em Dezembro, deixaria o cargo para o qual ia ser nomeado um sucessor. Assim&#8230;<\/p>\n<p>\u2026h\u00e1 toda uma aventura, agora, \u00e0 sua frente.<\/p>\n<p>Tudo&#8230; mas n\u00e3o perdi a paz. N\u00e3o perdi a paz.<\/p>\n<p>O Papa Francisco \u00e9 amado em todo o mundo, a sua popularidade cresce, como revelam as sondagens, e tantos querem v\u00ea-lo candidato ao pr\u00e9mio Nobel. Mas Jesus avisou os seus: \u201dSereis odiados por causa do meu nome\u201d. Como \u00e9 que se sente, Santidade?<\/p>\n<p>Muitas vezes me pergunto como ser\u00e1 a minha cruz, como \u00e9 a minha cruz&#8230; As cruzes existem. N\u00e3o se v\u00eaem, mas est\u00e3o l\u00e1. E tamb\u00e9m Jesus, num certo momento, foi muito popular e, depois, acabou como acabou. Ou seja, ningu\u00e9m tem garantida a felicidade mundana. A \u00fanica coisa que eu pe\u00e7o, \u00e9 que me conserve a paz do cora\u00e7\u00e3o e que me conserve na sua Gra\u00e7a, porque, at\u00e9 ao \u00faltimo momento, somos pecadores e podemos renegar a sua Gra\u00e7a. Consola-me uma coisa: que S\u00e3o Pedro cometeu um pecado muito grave \u2013 renegar Jesus \u2013 e, depois, fizeram-no Papa&#8230; Se com este pecado o fizeram Papa, com todos os que eu tenho, consolo-me, pois o Senhor cuidar\u00e1 de mim como cuidou de Pedro. Mas Pedro morreu crucificado, enquanto eu n\u00e3o sei como vou terminar. Que Ele decida, desde que me d\u00ea a paz, que Ele fa\u00e7a o que quiser.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que vive a sua liberdade sendo Papa? Apareceu de surpresa numa missa em S. Pedro, de manh\u00e3 cedo, foi ao oculista arranjar os \u00f3culos\u2026 Precisa do contacto com as pessoas?<\/p>\n<p>Sim, tenho necessidade de sair, mas ainda n\u00e3o chegou a altura certa&#8230; mas, pouco a pouco, vou tendo contacto com as pessoas \u00e0s quartas-feiras e isso ajuda-me muito. Sim, a \u00fanica coisa que estranho em rela\u00e7\u00e3o a Buenos Aires \u00e9 sair a \u201ccallejear\u201d, andar na rua.<\/p>\n<p>E terminamos com umas perguntas r\u00e1pidas: o que lhe tira o sono?<\/p>\n<p>Posso dizer-lhe a verdade? Durmo como uma pedra! [risos]<\/p>\n<p>E o que o faz correr?<\/p>\n<p>Sempre que h\u00e1 muito trabalho.<\/p>\n<p>O que nunca \u00e9 urgente, que pode esperar?<\/p>\n<p>O que n\u00e3o \u00e9 urgente? As pequenas coisas que podem esperar at\u00e9 amanh\u00e3, ou depois. H\u00e1 coisas que s\u00e3o muito urgentes e outras que n\u00e3o s\u00e3o urgentes&#8230; mas n\u00e3o saberei dizer-lhe, em concreto, que isto \u00e9 mais urgente do que aquilo.<\/p>\n<p>Com que frequ\u00eancia se confessa?<\/p>\n<p>Todos os 15 dias, 20 dias. Confesso-me a um padre franciscano, o padre Blanco, que tem a bondade de vir c\u00e1 confessar-me. E nunca tive de chamar uma ambul\u00e2ncia para o levar de regresso, assustado com os meus pecados! [risos]<\/p>\n<p>Como e onde gostaria de morrer?<\/p>\n<p>Onde Deus quiser. A s\u00e9rio&#8230; onde Deus quiser&#8230;<\/p>\n<p>A \u00faltima: como imagina a eternidade?<\/p>\n<p>Quando era mais novo, imaginava-a muito aborrecida [risos]. Agora, penso que \u00e9 um Mist\u00e9rio de encontro. \u00c9 quase inimagin\u00e1vel, mas deve ser algo muito bonito e maravilhoso encontrar-se com o Senhor.<\/p>\n<p>Obrigada, Santo Padre.<\/p>\n<p>Obrigado eu, e uma grande sauda\u00e7\u00e3o a todos os ouvintes desta r\u00e1dio. E, por favor, pe\u00e7o-vos que rezem por mim. Que Deus vos aben\u00e7oe e que a Virgem de F\u00e1tima vos proteja.<\/p>\n<p>Fonte: R\u00e1dio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aura Miguel, jornalista da R\u00e1dio Renascen\u00e7a e vaticanista h\u00e1 29 anos, entrevistou o Papa Francisco no Vaticano durante a semana em que decorreu a visita \u201cad Limina Apostolorum\u201d dos bispos portugueses neste m\u00eas de setembro. 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