Uma igreja apaixonante

    A visita do Papa Francisco ao Marrocos, norte da África, revela ao mundo o rosto de uma Igreja até então desconhecido. Incrustrado na passagem africana para o continente europeu, entre os oceanos Atlântico e Mediterrâneo, o reino do Marrocos tem uma população de aproximadamente 35 milhões de pessoas majoritariamente muçulmanas. Apenas 0,08%, aproximadamente 25 mil, se dizem católicas. Segundo seu arcebispo, D. Cristóbal Lopes, da diocese de Rabat, a Igreja de Marrocos existe e resiste: “É insignificante, mas significativa”.

    Para quem passa ao largo dessa definição perde a oportunidade de uma descoberta no mínimo edificante. Aqui o essencial é bem visível. Tanto que as primeiras palavras de Francisco em terras marroquinas já exaltavam o significado dessa presença cristã em situação tão adversa à sua ação evangelizadora. Disse em seu primeiro discurso: “Um diálogo autêntico convida-nos a não subestimar a importância  do fator religioso para construir pontes entre os homens e enfrentar com êxito os desafios. De fato, no respeito das nossas diferenças, a fé em Deus nos leva a reconhecer a dignidade e os direitos do ser humano”. Palavras sábias e cautelosas de alguém que prioriza não a realidade de sua instituição, mas a prioridade do Reino de Deus.

    Nesse painel de adversidades, salta-nos o testemunho de uma Igreja-viva, católica e apostólica por excelência. Existimos no Marrocos e aqui nos tornamos uma Igreja-samaritana, afirmou seu pastor maior. D. Cristóbal não esconde o orgulho de pertença a este rebanho, insignificante numericamente, mas que vive sua universalidade “em comunhão” com um povo de arraigada fé no mesmo Deus de nossos pais. Compreendem plenamente a necessidade de trabalhar não pela sua igreja ou comunidade, mas para o Reino. Testemunham sua fé como povo “orante em meio a um povo de orantes”, onde o diálogo islâmico-cristão tem a mesma característica da “visitação” de Maria, que levou Cristo sem estardalhaços, sem nada dizer… É uma igreja visivelmente ecumênica, em meio a outras minorias como os protestantes, anglicanos e ortodoxos.  Possuem em conjunto um Instituto Ecumênico de Teologia, cujo nome -“Al Mowafaga”- por si já é uma lição de diálogo. Significa “O acordo” ou “A compreensão”. Querem mais? Pois no quadro de avisos da catedral e de muitas de suas igrejas existe o seguinte aviso: Missa 10 hs. Culto Evangélico 12 hs.

    Não bastasse esse testemunho de vida cristã, a Igreja de Marrocos se define como Samaritana. E o é realmente, pois através da Cáritas internacional ali desenvolve um verdadeiro apostolado de ajuda aos muitos refugiados daquele continente mitigado pela fome, doenças e miséria extrema. No Marrocos encontram a porta para as ilusões do mundo que pensam civilizado, em especial o continente europeu.

    Dessa forma, o mundo cristão tenta ser ponte entre a realidade e as falsas ilusões apregoadas pelo mundo ocidental.  São verdadeiras pontes, capazes de fazer uma transição respeitosa entre mundos divergentes. Entre cristãos e muçulmanos, África e Europa, negros e brancos, oriente e ocidente, jovens e adultos, protestantes e católicos. Apregoam com a vida os ensinamentos básicos da doutrina que nos quer irmãos. Ou, como bem resumiu o arcebispo dessa Igreja que sofre, mas não se acovarda diante dos desafios: “Construir pontes ao invés de construir muros, ser uma Igreja apaixonada e apaixonante”. O essencial está bem visível: Deus acima de tudo! O resto é o que nos sobra, é lucro.

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