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quinta-feira, 18 abril, 2019.
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República Centro-Africana: um dos países mais pobres e mais perigosos

A República Centro-Africana (RCA) não é apenas o país mais pobre do mundo. É, ao mesmo tempo, um dos mais perigosos. Há cinco anos, uma guerra civil em curso tem assolado o país, com combates contínuos entre os rebeldes islâmicos “Seleka”, e as chamadas milícias “Anti-balaka”, retiradas da população não-muçulmana, e soldados das forças armadas regulares.

A Fundação Pontifícia ACN falou recentemente com o missionário comboniano espanhol Dom Juan José Aguirre Muñoz. Agora com 64 anos. Desde o ano 2.000 ele é o Bispo da Diocese de Bangassou, no sudeste da República Centro-Africana.

ACN: A República Centro-Africana raramente chega às manchetes. No entanto, há uma tragédia humanitária que se desenrola lá. Eventualmente rebeldes islâmicos, milícias não-muçulmanas e tropas do exército lutam entre si. No meio disso tudo está a população civil. Novamente, há ataques brutais e atrocidades. E eles estão continuamente em sua Diocese de Bangassou. Uma estação missionária foi atacada lá em 31 de dezembro de 2018, não foi? O que aconteceu lá e quem foi o responsável?

Dom Aguirre: A cidade de Bakouma foi atacada em 31 de dezembro de 2018, pelos rebeldes armados liderados pelo senhor da guerra Nourredin Adam, do FPRC (Frente Popular para o Renascimento da República Centro-Africana, uma facção muçulmana Seleka). A cidade foi destruída e a missão católica foi saqueada. Uma semana depois, ainda havia corpos não enterrados nas ruas da cidade. Nove mil pessoas da cidade de Nzacko que viviam em um campo de refugiados fugiram para o mato em condições que eram indescritíveis. Eles estavam com pressa de escapar da violência desses mercenários muito violentos.

O povo de Bakouma também fugiu! Muitos deles finalmente chegaram a Bangassou, a 130 quilômetros de distância, exaustos, com suas vidas em ruínas. Nosso caminhão fez várias viagens para lá e para cá com o intuito de ajudar os refugiados exaustos. Em nosso orfanato, Mama Tongolo, ainda existem dezenas de crianças desacompanhadas que chegaram a Bangassou. Elas estavam completamente desoladas, sem sequer saberem onde estão seus pais ou se ainda estão vivos ou não; ou se eles ainda estão se escondendo no mato; ou ainda se eles pararam em alguma vila ou seguiram outro caminho.

Um ano atrás, a cidade de Nzacko, a 80 km ao norte, também foi atacada por esses mesmos mercenários. A maioria deles era de estrangeiros (do Chade, Sudão e Nigéria). Eles expulsaram todos os não-muçulmanos da cidade, de modo que a população não-muçulmana agora perdeu tudo. Muitos deles até mesmo suas vidas. A missão católica foi completamente destruída, arrasada – o presbitério, a sala de operações (totalmente equipada para grandes operações) a escola Católica, a velha igreja e a nova também… Nos sentimos especialmente perseguidos por esses muçulmanos radicais. Há milhões de muçulmanos comuns no mundo que amam a Deus e respeitam o próximo. Mas, esses muçulmanos radicais do Seleka, que invadiram a RCA há cinco anos… eles são pessoas más, eles não conhecem o Islã.

ACN: Novamente há ataques aos campos de refugiados mantidos pela Igreja.
Em novembro de 2018, um campo de refugiados foi atacado dentro do terreno da Catedral Católica, na cidade de Alindao. Mais de 2.300 pessoas fugiram. Como é a situação deles e como as pessoas lidam com o medo sempre presente?

Dom Aguirre: O que aconteceu no campo dos refugiados não-muçulmanos em Alindao, em 15 de novembro do ano passado, foi um crime contra 26 mil refugiados desarmados. Houve 80 pessoas mortas, incluindo dois padres, Abbé Blaise Mada e Abbé Célestin Ngoumbango. Atualmente há 550.000 centro-africanos deslocados internamente que vivem nos campos de refugiados. Muitos deles foram vítimas de ataques criminosos e até de crimes contra a humanidade. Da mesma forma, outros campos de refugiados surgiram perto das Catedrais Católicas. Kaga-Bandoro, e até mesmo nas Missões Católicas como em Bria, Ippy e Zemio são exemplos disso.

ACN: Na sua diocese o senhor também está abrigando muitos refugiados. Mas a população muçulmana também foi atacada?

Dom Aguirre: Em 13 de maio de 2017, 2.000 muçulmanos de Bangassou foram ameaçados por grupos do Anti-balaka (um grupo de não-muçulmanos violentos e criminosos). Eles foram escoltados até a mesquita por soldados das forças da ONU. Poucas horas depois, as forças da ONU abandonaram a área e 300 atiradores abriram fogo contra a mesquita. O prédio, que estava cheio de mulheres e crianças, foi atacado impiedosamente. Eu fui lá com três padres e fiquei em frente à mesquita, tentando convencer o Anti-balaka a parar com o assassinato. Ao longo de três dias, eles mataram cerca de 30 muçulmanos. Apesar da nossa presença, em pé, na frente de suas armas durante esses três dias, eles ainda atiravam.

Depois, com a ajuda do contingente dos soldados portugueses da ONU, a comunidade muçulmana em Bangassou pediu para ser levada à Catedral Católica. Lá eles poderiam  se abrigar. Este abrigo de refugiados já existe há um ano e meio. Os ataques do Anti-balaka estão se tornando cada vez menos frequentes. No entanto, os dos senhores da guerra Ali Darass, Abdoulai Hissein e Alkhatin, destinam-se a expulsar os não-muçulmanos das áreas que conquistaram. Assim, eles estão buscando a divisão do país em dois.

ACN: Em um primeiro momento, pode-se pensar que o que está acontecendo na República Centro-Africana é um conflito religioso. O Cardeal Dieudonné Nzapalainga, o Arcebispo da capital Bangui, rejeita isso com veemência. Ele escreveu à ACN que “é absurdo assumir que a religião é a única razão responsável pelo caos”. Como o senhor vê a situação e quais são as causas reais da guerra civil?

Dom Aguirre: O conflito religioso é meramente uma cortina de fumaça para esconder a verdade. Milhares de mercenários – alguns deles centro-africanos das etnias Rounga e Ngoula, mas a maioria deles estrangeiros – invadiram o país desde o norte, auxiliados e armados pelo Golfo e pelo Chade. Eles contam ainda com a cumplicidade de outros países africanos, como o Sudão e a Nigéria. Seu objetivo é dividir a RCA e se aproveitar da riqueza mineral do país, como o ouro, diamantes, mercúrio, platina e assim por diante. Camuflado sob a aparência de uma luta entre muçulmanos e não-muçulmanos (que também é real) ou de choques culturais, se esconde um instinto predador de roubar as riquezas da RCA.

ACN: As facções rebeldes parecem ter um arsenal de armas à sua disposição. O senhor sabe alguma coisa sobre quem são os fornecedores? Existe alguma maneira de a comunidade internacional ajudar a diminuir a situação?

Dom Aguirre: Os rebeldes estão muito bem equipados, com armas, munições, veículos, logística etc. Acredito que tudo está vindo dos países do Golfo, com a cumplicidade do governo do Chade. O Exército da República Centro-Africana (FACA) sofre dificuldades por conta de um embargo de armas imposto pelas Nações Unidas. É muito bom ver os russos chegando como instrutores. Mas, se os soldados da FACA que eles estão treinando não têm armas, então que tipo de exército é esse? A responsabilidade de assegurar condições equitativas no conflito depende dos cinco estados membros que fazem parte do comitê permanente da ONU. São eles que atualmente estão impondo o embargo de armas à República Centro-Africana. Qual deles quer ver a RCA cair em um buraco negro?

Nos últimos cinco anos, todas as principais decisões relativas à RCA foram tomadas fora do país. Há uma agenda secreta para dividir a RCA em duas. Ela é, sobretudo, impulsionada pelos países muçulmanos e com a cumplicidade de vários outros países escondidos nas sombras, como o Chade, a Nígeria e a Líbia. Mas, no final, depois de toda essa politicagem, são sempre os mais pobres que pagam o preço, que têm que pagar as contas que nunca assinaram. São as mulheres e as crianças, os jovens perdidos que não sabem para onde ir em seguida, as meninas e mulheres que foram estupradas dentro dos campos de refugiados, os idosos acusados de feitiçaria – que estamos protegendo em nossas Casas de Esperança em Bangassou – as crianças órfãs por causa da guerra.

Nós, como missionários do Evangelho, estamos ao lado deles, tentando apoiar essas pessoas pobres e dar-lhes alguma esperança para o futuro. Primeiramente dizemos que Deus ainda é o Senhor da história. Mesmo que as ONGs estejam partindo para garantir sua própria segurança, a Igreja Católica sempre permanecerá no local. Estamos ao lado dos mais pobres e mais necessitados. Em muitos momentos de extremo perigo as pessoas correm para a missão católica para procurar refúgio lá.

ACN: A espiral da violência continua, no entanto. Os cristãos também estão pegando em armas. O que o senhor pode fazer como Bispo para evitar essa escalada?

Dom Aguirre: Nos últimos cinco anos, organizamos encontros que promovem a coesão social entre muçulmanos e não-muçulmanos, a fim de abrir um diálogo. Nesse sentido, criamos plataformas como as Mulheres pela Paz e reuniões intercomunitárias para promover a coesão social. Tudo isso funcionou bem. As comunidades muçulmanas moderadas estavam dispostas a se engajar no diálogo. Mas então, os novos atos de agressão ocorreram. Agora, as reuniões perderam sua razão de ser, porque os não-muçulmanos estão acusando seus vizinhos muçulmanos de cumplicidade em seus corações.

Ao mesmo tempo, denunciamos todos os crimes contra a humanidade, tanto por parte dos Seleka quanto do lado dos Anti-balakas, e também por parte dos soldados das forças da ONU, quando alguns contingentes falharam ao proteger a população civil e simplesmente ficaram estáticos, enquanto eles estavam sendo massacrados, como aconteceu em 15 de novembro em Alindao com o contingente da Mauritânia.

Em muitas áreas de alto risco, montamos escolas católicas, tanto nas zonas sob controle dos Seleka quanto nas controladas pelos Anti-balakas. Milhares de crianças, muçulmanas e não-muçulmanas, participam das aulas, passando a manhã lá e se misturando, vestidas com o mesmo uniforme. Elas brincam juntas, estudam juntas, e se aproximam. Na escola, elas criam um ambiente descontraído que pode servir de modelo para os adultos da região. É um investimento para o futuro. Tiramos o chapéu para os professores que estão dispostos a ir trabalhar em áreas de alto risco e apoiar os padres, mesmo com o risco de perder suas próprias vidas.

ACN: Como vê o futuro da República Centro-Africana e o que organizações como a ACN podem fazer para contribuir para o seu desenvolvimento futuro?

Dom Aguirre: A ACN já está nos ajudando de maneira importante. Nossos sacerdotes, nossos seminaristas, nossos catequistas – que permanecem firmes ali, como colunas de bronze, em algumas das regiões mais difíceis – foram em muitos casos formados com a ajuda da Fundação Pontifícia ACN; vocês também apoiaram a formação para famílias cristãs. Há lugares na diocese onde muitos cristãos morreram como mártires. O fato de ainda existir uma escola católica que está funcionando já é um milagre. E a ACN também faz parte desse milagre, porque vocês estão nos ajudando a encorajar essas famílias exiladas a retornarem e reconstruirem suas casas, ajudando crianças na escola, órfãs e refugiadas. As missões de Bema e Zemio em nossa diocese funcionam graças à ACN e aos seus benfeitores.

A ACN está encorajando os nossos agentes pastorais, os nossos religiosos e padres, permitindo-lhes participar em retiros e “recarregar as suas baterias”, e obter ajuda para aqueles que foram traumatizados e sofrem de stress pós-traumático. A Igreja missionária está mais viva em todo o mundo graças à Misericórdia de Deus e ao trabalho da ACN. Por meio de suas publicações e trabalhos de mídia, vocês são capazes de mostrar às pessoas as provações e tribulações que a Igreja missionária está realmente passando, em todo o mundo.

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