Política dentro da igreja

    Vem aí mais uma Campanha da Fraternidade. Desta feita, eivada de política e de alertas públicos à vida político-partidária de seus fiéis. Vem aí mais uma enxurrada de críticas e discordâncias contra a ação evangelizadora da Igreja, com a velha desculpa de que esta não deve “se meter em política”. Não mesmo? Então, vamos por partes.

    Primeiramente, todo e qualquer indivíduo minimamente evangelizado – se preferir, que seja minimamente alfabetizado – tem em sua consciência o modus vivente da ação política. Ou seja: é um ser político. Ou seja, não se exclui da massa política que o rodeia. A vida social e comunitária, obrigatoriamente, exige do indivíduo opções e participações políticas. Igualmente a vida religiosa. Quer queira, quer não, o cristão – por sua opção e por seu seguimento ao mestre da fraternidade – só é autêntico em sua espiritualidade se esta possuir uma ampla visão de seus deveres cívicos, incluindo aí suas opções políticas.

    Isto posto, é preciso entender as ciências políticas como qualquer outra, pois dela emanam e nela se inserem as ciências da administração dos bens comunitários, a vida econômica, as ciências sociais, religiosas e morais, bem como todo e qualquer advento da vida pública da qual obrigatoriamente fazemos parte. Então a Igreja nos propõe uma reflexão binária, quase redundante: Políticas Públicas! Binária porque se divide em dimensões estanques, bem definidas. Quase redundante porque se é política é pública; se pública, também é política. Por si, essas diferenciações já dão o que falar.

    É fato que nos últimos anos experimentamos uma grave crise de credibilidade política, que por certo abalaram os pilares da democracia representativa. Muitos não se sentiram representados na vida político partidária e assim disseram não ao assunto, excluindo-se ou rebelando-se contra aqueles que os representavam. Tudo muito natural, não fosse essa reação um grave processo de criminalização e descrédito aos movimentos sociais, braço forte de uma democracia sadia. Isso devemos resgatar, salvar. Se tais movimentos incomodam é sinal de estarem trilhando um caminho de justiça e solidariedade. Eis aqui a mais bela face da vida cristã: justiça e solidariedade!

    Por tudo isso, o tema bíblico desta campanha nos recorda: “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27). Quem disse isso? O grande profeta, o mesmo Isaias rebelde e inseguro no inicio de sua caminhada, que se negava a assumir sua missão, que teve a língua queimada por um anjo para que essa se destravasse de sua mudez e então gritasse: “Aqui Estou! Envia-me” (Is 6,8). Dessa opção sofrida, mas consciente, nasceu o maior dos profetas da nossa fé, lembrando que profetismo é uma ação essencialmente política e estritamente pública. Dela derivam o anúncio evangélico e a denúncia contra as mazelas humanas, dentre as quais, a nossa omissão política. Por essa e outras é que não aceito um cristão sem o profetismo político que o faz atuante na vida comunitária. Por essa é que aceito e aplaudo a doutrina social da Igreja. É que vibro quando dos nossos púlpitos e movimentos emanam diretrizes e ensinamentos coerentes com as políticas públicas que conduzem nosso povo. Porque nessa massa estamos todos. Porque fazer crescer a massa também é o processo para se obter o pão de cada dia. E este só será alegremente saboreado quando obtido pela levedura da justiça e do direito de cada um. Isso só uma política pública sadia e consciente poderá nos dar. Assim seja!

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