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segunda-feira, 19 agosto, 2019.
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Crise na República Centro-Africana (RCA)

The Church of the Holy Sepulcher in Jerusalem reopened today, on 28.02.2018 Last Sunday, the Catholic, Greek Orthodox and Armenian church leaders had jointly decided to close the sanctuary indefinitely. They wanted to protest against two controversial proposals in the city. Photo: Catholic, Greek Orthodox and Armenian church leaders in front of the sanctuary in Jerusalem

Vários relatos da mídia sugerem que a atual crise na República Centro-Africana (RCA) é causada por um conflito entre muçulmanos e cristãos, e pelos esforços islâmicos para subjugar os cristãos.

“Isso não é verdade”, disse Dom Nestor Nongo-Aziagba de Bossangoa, presidente da Conferência dos Bispos da República Centro-Africana. Segundo ele, o constante derramamento de sangue é o resultado da exploração econômica. Também a luta pelos ricos depósitos de diamantes e ouro do país por parte de atores estatais e não-estatais é causa de violência.

A declaração foi dada pelo bispo para a ACN durante uma visita a Washington, DC, na segunda Reunião Ministerial para o Avanço da Liberdade Religiosa que reuniu cerca de 1.000 líderes religiosos e representantes de organizações governamentais e não governamentais.

Durante uma entrevista, Dom Nongo disse que falar sobre o conflito na RCA como um choque entre o islamismo e o cristianismo é “uma distração, um desvio do verdadeiro problema da pobreza, analfabetismo e falta de justiça”.

Outro exemplo é a impunidade de numerosos grupos rebeldes assassinos. O bispo acrescentou que o RCA está vivendo uma crise política e não uma crise religiosa.

Caminho da crise na RCA

No final de 2012, várias milícias muçulmanas fundiram-se no grupo Seleka (que significa “aliança”) e atacaram comunidades não muçulmanas. Em reação, formaram-se os grupos dos chamados anti-Balaka, um grupo de milícias, em grande parte não-muçulmana, que também inclui vários cristãos. Então um conflito sangrento começou, com ambos os grupos aterrorizando tanto a população cristã quanto a muçulmana, causando enorme sofrimento.

Segundo o registro das forças de manutenção da paz das Nações Unidas (Human Rights Watch), em 2018 havia mais de 640 mil fugitivos, enquanto a ONU estima que o número de pessoas que fugiram do país chegou a quase 570 mil. A experiência na RCA com as forças de paz das Nações Unidas é, na melhor das hipóteses, “irregular”.

O Seleka – agora o ex-Seleka, porque agora se dividiram em diferentes milícias muçulmanas –  “são rebeldes que estão aqui para explorar o país, não para converter a população”, diz o Bispo Nongo. Ele diz ainda que “essas milícias estão prejudicando tanto os cristãos quanto os muçulmanos ”.

Mais de dois terços das milícias são formadas por mercenários muçulmanos do Chade, Níger, Camarões e outros países, diz o bispo. No entanto, eles não perseguem objetivos islâmicos, mas sim perseguem a riqueza mineral do país. Assim, aproveitam as oportunidades que lhes são oferecidas para enriquecerem. De fato, muitos membros das milícias não praticam o Islã.

Assim como os Seleka se apresentam como protetores da maioria muçulmana da RCA, os Anti-Balaka proclamam que estão defendendo os interesses da maioria cristã do país. Ambos os lados distorcem a realidade, diz Dom Nongo. O prelado acusa vários grupos rebeldes de se beneficiarem do apoio direto ou indireto de países como a Rússia e a China. Ainda segundo o bispo, até mesmo países ocidentais buscam se beneficiar da riqueza do subsolo da RCA.

Os desafios no caminho

O maior desafio do país, de acordo com o bispo, é criar um mínimo de condições de segurança. Assim, as pessoas poderão retornar às suas casas, ao trabalho e “viver sem medo umas das outras”.

Entretanto, muitos adultos, crianças e jovens juntam-se à milícia devido à pobreza crescente. Também somam a falta de educação, a perda de suas casas e o medo de novos ataques . “Precisamos acabar com a frustração das pessoas com a situação do país”, disse o bispo.

A fraqueza do governo da RCA é evidente pelo fato do país quase não ter estradas. Além disso, cerca de 80% do país é controlado por grupos rebeldes. No nordeste da RCA, a população local negocia com o Sudão e usa a moeda sudanesa; e no sudeste do país, a atividade econômica está centrada na República Democrática do Congo (RDC), com a moeda de uso local da RDC. O bispo pergunta: “Onde está a soberania do nosso estado?”

A Igreja na RCA está fortemente empenhada em promover o diálogo entre muçulmanos e cristãos, reforçou Dom Nongo. “É crucial”, diz ele, “que cristãos e muçulmanos mostrem que estão unidos”, opondo-se à violência perpetrada em seu nome.

Em fevereiro de 2019, o governo da RCA assinou um acordo de paz em Cartum, no Sudão. O evento foi realizado com mais de uma dezena de grupos rebeldes. Mas Dom Nongo tem dúvidas sobre o impacto de longo prazo do tratado de paz. Vários signatários das milícias “interpretam o acordo de maneira contraditória”.

“Como bom cristão, tenho esperança no futuro”, disse Dom  Nongo. “Mas tenho que ser realista: está sendo muito difícil superar a violência dos últimos sete anos”.

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